Ter sido o menino gordo nos meus tempos de meninice em Alhos Vedros, sem jeito nenhum para a bola, foi das experiências mais enriquecedoras que tive. Comigo nunca sobrava nada no pratinho e coitado do meu cão Mondego que nunca se safava com restos da minha parte, aliares, tenho memória que quando eu ainda era amamentado ele era um portentoso Serra da Estrela e quando comecei a comer à mesa ele virou uma espécie de lobo Chihuahua com a fominha que passava. Ser bom garfo aos 10anos é uma sina e podia usar aquela reza para os outros que era um problema de glândulas. Era, se entrecosto com glândulas ou favas com glândulas fosse um problema.

 

Se outros temiam a matemática na escola eu temia sempre a educação física por várias razões: correr mais que 10 metros era custoso e a minha única qualidade é que fazia os outros sentirem-se Usains Bolts. Quando era para escolher equipas para jogar à bola as raparigas eram escolhidas primeiro e mesmo assim eu ia parar à baliza com o devido recado “que a minha densidade corporal me proporcionava habilidades defensivas” além do quão ridículo eu parecia de equipamento desportivo (tentem vestir um leitão com uma jersey do Benfica para terem uma ideia). Como se não bastasse, à saída, éramos perseguidos por ciganos e era tipo uma extensão da educação física. Os outros fugiam de asas nos pés e eu, o gordo, era o último com os seus 30 kg de livros na mochila e era o primeiro a ser apanhado. Mas eu também não lhes facilitava porque após correr 6 metros eu já suava em pinga e aquilo por momento parecia a apanha do porco no curral como nas festas da Moita. Depois deste exercício todo chegava a casa cheio de fome e malhava uma sandes mista com manteiga Planta nos dois lados do pão e um Um Bongo. Ou duas. “Mas se estás gordo porque é que não comes menos?” - dizia gente estúpida magra amiúde. O que estes anoréxicos d merda não entendem é que para quem gosta de comer não é bem assim. Quem gosta de comer não para porque já comeu suficiente, quem gosta de comer só pára quando o último pedaço de pão tiver rapado o molho da frigideira. “Come entre as refeições para enganar a fome” – outra que eu ouvia. Sempre achei que a minha fome era muito inteligente e não se deixava enganar. “Bolachinhas de água e sal? Que é isto?” - dizia a minha fome. Com o passar dos anos e a necessidade de ter uma vida sexual normal levou-me a moderar a minha alimentação e fazer algum desporto mas a gula essa irá sempre persistir e essa é a cruz que eu e muitos carregamos para tentar manter um peso que não pare elevadores. Faz e fará sempre parte de mim o gosto quase sexual por comer bem e ainda tenho um brilho nos olhos quando meto a primeira garfada de entremeada no bucho e sei que tenho mais 8 para comer junto com meio kilo de batata frita. Mas o meu canito Mondego voltou a parecer um cão, o meu jeito de jogar à bola permanece e só sou roubado por ciganos nas festas de Alhos Vedros.

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