Quando me perguntam qual é a zona do país com que mais me identifico, tenho bastante dificuldade em responder. Penso em todos os sítios por onde já passei e todas as pessoas que conheci. Tenho recordações de cheiros, sons e momentos de Norte a Sul. Sempre consegui achar a beleza de cada lugar, até mesmo quando ela não estava visível a olho nu. Mas já voltamos a este tema.

Eu nasci em São Domingos de Benfica, na Cruz Vermelha. Os meus pais, dois marialvas de Lisboa, escolheram a Margem Sul para viver. Primeiro, a Costa da Caparica. Foi lá que os meus pais decidiram assentar arraial com o seu cão Mick (em honra da sua banda preferida, os “Rolling Stones”) e um bebé pequenino que se fartava de comer. Não foram poucas as vezes que a casa foi assaltada, quase em jeito de prenúncio para o que se viria a tornar a Margem Sul nos anos 90, tendo os meus pais decidido rumarem um pouco mais para dentro, mais concretamente, para a Torre da Marinha. 6 meses depois de eu nascer, ali estava eu numa vila ou lugar (nunca soube) ainda com alguns resquícios de uma ruralidade cada vez mais alcatroada, onde a sombra das figueiras começava a dar lugar aos prédios de então. Aqui fui crescendo, juntamente com filhos de outros filhos que vieram de longe. A praceta onde vivia sempre nos deu mais espaço para brincar do que qualquer quarto e as bicicletas eram rainhas e senhoras da estrada. Ali fiz os meus primeiros amigos. Esfolei os joelhos. Dei o meu primeiro pontapé numa bola. Joguei às escondidas. Ficávamos até tarde, apenas a falar alto para toda a praceta ouvir e a deixar corados os nossos pais, por entre alhos e bugalhos lançados para o ar. Ríamos muito. Lembro-me de ir para casa e ainda ouvir todos eles a rir no meio da rua. Ia para a escola a pé, vinha da escola a pé, fui para outra escola a pé, fui assaltado, vim para casa a correr, fui para escola a correr, consegui escapar nesse dia e fui assaltado à vinda. Cresci tal como os outros. Vi esta terra mudar aos poucos e poucos, a ser vilipendiada nas notícias como de uma pêga de rua se tratasse.

 Como se tudo pudesse ser explicado ou entendido apenas com o título de uma notícia de capa de jornal e uma terra inteira fosse toda rotulada de fora-da-lei de forma tão leviana pelos media. Haverá, tal como em todos os sítios, zonas onde eu sei que não é aconselhável eu andar sozinho na rua. Haverá, tal como em todos os sítios, gente boa e gente má. Gente má que pratica o bem e gente boa que consegue ser muito má quando quer. Aqui neste lado, não somos melhores ou piores. Todos nós tivemos uma infância parecida com os restantes putos do país. Isto, ao contrário do que se pensa, não é a baixa de Bagdad. Somos apenas miúdos suburbanos que iam de autocarro para a escola e que se tornaram homens em viagens de catamarã e comboio para o trabalho. Todos os dias, "vamos e vimos". Vamos e vimos. Custa entender para quem está de fora, porque é que nos submetemos a esta linha recta desenhada por cima do Tejo diariamente. Afinal, o que é que há deste lado que é tão transcendente? O mesmo que há na vossa terra: pessoas. Fomos nós que fizemos esta Margem e lhe demos vida. Nós, deste Lado.

Quando me perguntam qual é a zona do país com que mais me identifico, eu tenho mesmo bastante dificuldade em responder. Vibro com o Alentejo, a paisagem do Norte e a areia do Algarve. Mas são as pessoas que tornam esses sítios especiais. É a pronuncia de uma moça portuense, o sorriso de uma alentejana e o bronze de uma algarvia. São as pessoas que fazem os sítios e não o contrário. Foi a conviver com elas que fiquei a amar os sítios e não o contrário. Aqui nesta Margem, com tudo o que de bom e de mau nós temos, somos nós que a fazemos. Não é o Cristo-Rei. Não é a Ponte. Não é a Caparica. Somos nós. São as pessoas que fazem esta Margem ser o que é, porque cada terra vai ter sempre a sua própria beleza, mas são as pessoas que a tornam inesquecível. De Quintanilha a Albufeira. De Torres Vedras à Margem Sul. Daqui a Lisboa. São as pessoas que tornam os sítios inesquecíveis. Trinta e quatro anos depois, vou fazer a minha última travessia para o outro lado. Esta Margem ficará onde está e as suas pessoas também. Nada irá mudar, pois "nha" terra será sempre esta, esteja de que lado do rio eu estiver. Não vou levar comigo areia da Fonte para o outro lado, certo? Vou levar as pessoas na minha memória e tudo o que elas me proporcionaram.

Porque são elas o meu sítio preferido. Até já, Margem Sul.

Deixo-vos com uma coisa que escrevi nos primórdios desta página:

"Esta terra é uma singularidade. Do Seixal a Almada somos um. Somos nós que vimos o primeiro filme no Nina. Nós que nos embedamos em Almada Velha, caímos ao Tejo e voltamos com uma tainha em cada mão e duas na boca. Nós que crescemos habilmente a refundir notas nos orifícios do corpo a atravessar a Boa Hora todos os dias como se fosse um episódio do "Nunca Digas Banzai". Nós que sabemos duas palavras em crioulo e julgamos logo que podemos viver em Cabo Verde. Nós que não podemos com comunas, mas dançamos que nem elfos gays quando a Carvalhesa toca no Avante. Nós que temos estômagos que aguentam um almoço de cachupa na Tia Bé, um jantar no Wu no Seixal e ainda rematamos com uma bifana do Jacinto mais tarde. Nós que todos os anos reclamamos das merdas das feiras mas todos os anos lá vamos para comer uma fartura e falar ainda mais mal daquilo. Nós, que quando dizemos de onde somos, nos dão a carteira ou tentam fazer um cumprimento complicadíssimo como se fôssemos professores de língua gestual. Nós que temos a maior percentagem de forcados amadores e dançarinos de kizomba a conviverem juntos . Nós somos 2840, 2850 e 28 por aí adiante. Somos sócios, somos boys, damas e manos. O Cristo Rei nos abraça e o Almada Forum nos veste. O roncar dos nossos Puntos amarelos é o nosso hino e Rui Unas o nosso Messias.Falar mal da nossa terra só nós falamos. Porque somos todos Margem Sul, foda-se!"

T-shirts

t shirts do ruim

T-shirts do Ruim na loja online do Cão Azul.

COMPRAR T-SHIRTS

O Livro do Ruim

livro do ruim

A compilação dos melhores textos da página e com prefácio do não tão conhecido Quimera.

COMPRAR O LIVRO

Quem?

ruim o rui conceicao

O auto-proclamado autor, guionista, blogger e comediante.