Pode parecer que não, mas este atrasado mental com índices de um autismo leve foi em tempos um moçoilo que ficava todo pimpão numa farda. Grande parte da minha vida adulta foi na Marinha de Guerra Portuguesa, essa grande escola da vida, de mar e onde finalmente aprendi a fazer a cama e gins tónicos.140 rapazes e cerca de 20 raparigas. Um total de 180 mancebos. Tudo com os paizinhos a chorar à porta, casais em despedidas cinematográficas e eu com as minhas inseguranças próprias de quem sabia que ia levar com um gigantesco par de cornos por parte da namorada. Era esta a minha incorporação num dia ameno de janeiro. Fomos perfilados, alinhados, ordenados e é nos atribuído um número, roupa da cama, uma farda cor de feijão verde e uns ténis feitos de papel celofane para correr (o Mowgli do Livro da Selva tinha melhor calçado que eu).

Passar de uma realidade civil com a vitalidade própria dos 20 anos para um mundo hierarquizado, organizado e onde tudo tem um nome esquisito é um pouco chocante ao inicio. Não havia lavagens, havia “baldeações”. Não havia quarto mas sim “cotê”. Não havia cordas em lado nenhum mas sim “cabos”. E não havia Ruim, havia 9316305. Eu era a partir de hoje e durante alguns anos um número. Percebi que estava num sitio em que não havia uma resposta certa para nada.

 Se dizia bom dia tinha um gajo a gritar-me:“MAS PORQUE É QUE VOCÊ DISSE BOM DIA SEM AUTORIZAÇÃO, SEU FILHO DE UMA GRANDE P#TA? É METEOROLOGISTA? ”

Se não dizia bom dia:“ENTÃO MAS A P#TA DA SUA MÃE NÃO LHE DEU EDUCAÇÃO, SR. 9316305?? A PARTIR DE HOJE DIZ BOM DIA A TODOS, INCLUSIVE AOS PÁSSAROS."

Ao inicio pensei que a minha mãe me devia algumas explicações quando eu chegasse a casa, mas depois percebi que tanto eu como os outros 140 éramos todos filhos da mesma mãe. Menos elas. Ai elas não. A mim entraram-me pelo coté a dentro com um megafone, granadas de fumo e puxaram-me por um pé a dizer:

“TUDO LÁ PARA FORA COMO ESTÃO, SEUS FILHOS DE UMA GRANDE PUT#”.

A elas, bateram à porta e perguntaram se podiam ter a amabilidade de ir lá fora convenientemente vestidas e que depois podiam ir beber cacau quente e bolachinhas (estranho que nunca vi aqui alguma delas a pedir igualdade). Realmente havia uma insistência muito grande na profissão das nossas mães por parte daquele pessoal o que me deixou a pensar se realmente eu era mesmo filho de uma grande put#.O choque de realidade era notório em todas as nossas ordens e tarefas e corria em paralelo com outro choque: o de culturas.Eu nasci em Benfica e fui criado na Margem Sul. Isto é quem eu sou culturalmente e como cresci. Isto influencia a minha linguagem, sotaque, maneirismos, expressões e a forma de encarar as pessoas e os problemas. Não sou melhor nem pior que ninguém mas estava pela primeira vez no meio de pessoas de norte, sul e ilhas a conviver. De Vila Praia de Âncora a Portimão. De Vila Flôr a Monte Gordo. De um gajo que veio de uma aldeia com 15 pessoas a um mitra da Amadora. Claro que tinha de haver choque cultural mas eu escolhi o meu lado rapidamente como se faz nas prisões: alentejanos. Melhor raça do mundo para se ter ao pé num apocalipse zombie. Aqueles maganos sabem fazer tudo. Desde uma sopa com urtigas e malmequeres a desmontar um motor com um palito e uma carica. Obviamente que os meus "inimigos naturais" era tudo o que vinha com sotaque de bê por vê. Sempre com a mania das expressões a querer reinventar a língua como “à minha beira”, “sapatilhas” e “aloquete”. Quando me vinham com esses dialectos, eu respondia em "crioulo" com “mi ta fla un cosa, crica di boman kadera nhos" (eu não falo crioulo, mas cresci junto a cabo-verdianos suficientes para fazer pensar que sei a quem nunca ouviu).
Portanto, a missão daquela boa gente da Escola de Fuzileiros era pegar neste pote de diferenças culturais, de vivências e meter-nos a todos a marchar e a falar a mesma linguagem em 6 semanas. Cada um tinha a sua aptidão derivado da zona que era: os alentejanos eram óptimos no mato e orientação, os do norte tinham uma puta de uma motivação para trabalhar fora do normal, os algarvios eram patos na água e eu e os gajos da Margem Sul mexíamos nas armas melhor que os formadores.Só da parte física guardo algumas más memórias. Passado este tempo todo, nem uma elevação em trave consigo fazer. Tal e qual um veterano do Ultramar, fiquei com stress pós traumático do que sofri com os monitores de educação física:

"SR. 9316305, ELEVE-SE. IMAGINE QUE LÁ EM CIMA ESTÁ A GAITA DO SEU NAMORADO E EM BAIXO A DO SEU AMANTE ANGOLANO. PARA CIMA E PARA BAIXO, SR. 9316305".

Foi uma escola de vida principalmente para mim e para todos. Aprender a respeitar diferenças, trabalhar em equipa, lavar cagadeiras e ser chamado de coisas que não vêm em nenhum dicionário. O que é certo é que muitos destes putos que marcharam comigo ainda lá estão e a esta hora que estamos aqui todos sentadinhos nas nossas casas, escritórios e gabinetes com AC eles andam a bater mar, longe dos filhos e a levar com malagueiro de fazer tremer o cu a Neptuno. Não acho que todos deveriam ter ido à tropa porque isso é discussão que dá pano para mangas, mas que fazia bem a muito inútil de smartphone em alta voz no comboio de manhã ai isso fazia. Ganhei amigos (e amigas) para a vida e vi qual a maior arma na defesa de um país: as suas gentes. Podem vir americanos, ingleses e holandeses com os seus couraçados de milhões de euros, que os nossos lhes dão baile com um barco a remos, uma grade de minis e uma pressão de ar de F476 maneiras diferentes.

A todos os homens e mulheres da Briosa, um grande bem haja.

Talant de bien faire.

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