Não é todos os dias que um gajo te tira completamente do sério apenas por existir a menos de 2 metros de ti. Ele não me fez mal, não me disse nada ou olhou para mim. Ele apenas existiu ali no mesmo espaço que eu e tudo o que era sentimentos negativos de raiva pura corriam pelo meu sistema nervoso. Jantei numa tasca em Entrecampos com a cara-metade sob recomendação de terceiros. Espaço iluminado, boa carta, preço a condizer, bla bla bla. Não foi nem dois segundos que meto o pé lá dentro e oiço um vozeirão junto da única mesa disponível:

"AND SO, THIS IS HOW I LIKE MY COD. YOU KNOW WHAT COD IS? COD IS THE BEST. WE LOVE COD HERE IN PORTUGAL"

Chamar de cromo é redutor porque isto era uma caderneta da Panini daquelas que se conseguia acabar. Um rapaz pouco mais novo que eu com cabelo pelos ombros e óculos, descrevia alegremente todos os pratos e particularidades da nossa gastronomia a duas (julgo eu) holandesas ou francesas. Eu sou gajo. Alguns de vocês são gajos. Acreditem: nós sabemos quando um gajo se está a fazer a uma gaja. E até aí tudo bem, mas eu não estou para apreciar uma refeição com um megafone de óculos com cara de que não come uma gaja desde que o Guterres era ministro a gritar-me aos ouvidos que cod é very nice.

 A menina da sala deve ter visto algo de Dexter meets Hanibbal Lecter no meu olhar porque aparece com um pratinho de ovos mexidos com farinheira e diz que é oferta da casa. A tentar calar-me com comida, hein? Aceitei mas contrariado. A minha pessoa começa a revirar os olhos e a prever o que já ia acontecer:

"Não vais começar, pois não?"- "Ai vou vou. Ah you believe que vou"

Ela já me conhece o suficiente para saber como eu lido com pessoas assim ou semelhantes: imito-as e ainda faço pior.Aparece a menina da sala e pergunta se já escolhemos e agora é a minha vez de falar alto para o Harry Potter Pantene Pro V com cafeína a mais ouvir:

"Yes.. olhe eu queria umas between the meadas. And the senhora will eat the bitouch"

"Desculpa, não percebi"

Enquanto o outro lado da mesa traduz para linguagem de adultos o que eu queria comer, olho para trás para ver se o vocalista dos Extreme míope me tinha entendido. Nada. Zero. QUE LATA. As duas gajas diziam "ah" e ele "OOOOOOOH BUT THAT'S AMAZING" e tudo o que elas diziam era amazing e wonderful e tudo isto vociferado aos meus ouvidos. Sangue fervia. A minha namorada começa a lançar-me olhares porque sabe que a seguir me vou levantar e gritar com ele em linguagem de wookie, quando de repente:

"ARROZ DOCE IS THE BEST. YOU KNOW WHAT ARROZ DOCE IS? I'VE EATEN ARROZ DOCE FROM NORTH TO SOUTH OF PORTUGAL AND THE BEST ONE IS FROM MY GRANDMOTHER"

Aqui está. O último reduto do desespero de um homem que já está a ver que não vai comer ninguém: gabar-se que é o gajo que já comeu arroz doce por todas as estações e apeadeiros desta nossa pátria lusa. E mais: usar a avó para o conseguir. Aqui a minha namorada também perdeu a postura e baixa a cabeça a rir. Não dá. A partir daqui o desespero apodera-se do Nuno Gomes em fim de carreira com cataratas e começa a querer impressionar as gajas com conhecimento de vinhos. Não apanhei bem a tanga que ele estava a querer dar mas sei que a meio de "(...) it's a special kind of grape that grows only in the south, Ó SENHOR ZÉ... MOSCATEL LEVA O QUÊ MAIS ALÉM DE UVAS? LEVA ALGUM AROMA DE ALGUMA COISA OU AQUILO É TIPO SÓ UVAS and so it's a very sweet wine (...)"

A minha mente transmitiu à minha boca "leva piças também, que é o que elas duas vão levar de outro que não tu" mas a presença de uma pessoa que merece o meu melhor comportamento (ou parecido) impediu-me de tal.

Eu não falo baixo. Admito. Mas isto era uma coluna do Rock in Rio com óculos, porra."Sobremesa, vão desejar?""A little mousse... just to kill the little mouse"Agora ele ouviu. Eu sei. Olho para ele. Ele para mim. Boa, hoje rapei o cabelo e tou com aquele olhar de sérvio em cativeiro. Ele não diz nada. Ganhei. Não sei bem o quê, mas ganhei.

Pago e saio sempre a olhar para ele. Ele não olha. Quero tanto que ele olhe para mim. Odeio-o tanto. Mas tanto!Eu não gostava de ser assim. Eu não sou o herói que as tascas precisam, eu sou o herói que as tascas merecem.

Eu ganhei. Algo.

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