Em 2004 e após anos de tratamentos, a medula do meu pai zangou-se, fez birra e começou a fabricar uma proteína a mais no sangue. É a chamada “doença galopante” (como se de um cavalo até aí manso se passasse dos cornos, desatasse a correr e levasse tudo à frente). Até ali estava tudo mais ou menos controlado com injecções, comprimidos, merdas que eu nunca soube o que eram, biopsias, análises disto, análises daquilo mas pelo menos sempre o ouvi dizer “ainda não me meteram nada no cu, logo, está tudo bem!”. Mas num belo dia de Maio, a médica que acompanhava o meu velho, contacta a minha mãe a informar que, bom, ele ia no caralho. Assim, sem censura e não posso ser mais honesto e bairrista. E era uma questão de pouco tempo. Depois de eu chegar a casa e receber esta linda notícia, entrei num estado que só posso descrever como uma moca de opioides 24/7. De forma sorrateira, a minha mãe convence o meu pai a ir para o hospital da mesma maneira que se convence uma criança a ir ao médico: “vamos ao zoo, meu amor” e zau, levou-o para a guilhotina mais lenta do mundo. A primeira coisa que me disseram quando entrei no hospital era que eu não podia mencionar a palavra morte ao meu pai, porque, coitado, podia morrer de susto. Tivemos de fazer um teatrinho durante dois meses que só faltou usarmos todos roupa de uma peça do La Féria para termos ganho um Globo de Ouro tal era a nossa performance. Diariamente, estava “tudo bem”. “Olha, cortaste-te e estás a sangrar há duas horas porque as plaquetas emigraram para Paris de França? Normalissímo, pai. Juro que não estás aqui para morrer.”

Eu vou dizer o nome da doença, mas aviso já: eu acho que se contrai depois de a dizermos. Gamapatia Monoclonal IGA K. Foda-se. Que pinta do caralho. Parece algo que só um gajo que vive em Alvalade apanha. É uma espécie de leucemia gourmet que se instala no corpo como o turismo em Lisboa: sem controlo e destrutivo para quem lá vive. Durante cerca de dois meses, brincámos ao jogo da espera, ou seja, eu ia todos os dias ao hospital ver mais um episódio do “How I Lost My Dad” e vou ser sincero, não me surpreendeu o final (tinha sido interessante um twist final. 2 estrelas em 5). Ver uma pessoa a desvanecer aos poucos é uma experiência interessante e que recomendo a todos os amantes de arte conceptual. Cada dia ele tinha um penso de morfina novo e eu brincava com ele, chegando a pedir-lhe se podia meter um na gaita. Só para ver o que acontecia. O que foi? Pior ele não ficava e devia saber bem ter o "menino" aconchegadinho.

Vamos saltar para a parte que interessa e que é o assunto central. Tudo bem que quem está de fora sofre. É justo. E a eutanásia é um alívio para quem está farto de ver o ente querido sofrer, mesmo que não o queira admitir. Sabem quem é que sofre mais? Em 21 anos eu nunca tinha visto o meu pai chorar de dores e acreditem que se aquele homem gritou quando os enfermeiros lhe pegaram ao colo para tomar um simples banho, era porque estava mesmo em sofrimento (dado ser um gajo que acreditava que chorar era coisa de paneleiro). Os órgãos estavam todos a jogar uma versão maléfica de um jogo de slots, pois competiam entre si a ver qual era o primeiro a falhar. Todo e qualquer toque no corpo do meu pai era um murro de um lutador de MMA em cheio no estômago. Por esta altura, ele parecia uma múmia tal era o número de pensos de morfina. Eu cheguei a meter um na cabeça enquanto ouvia The Doors para curtir uma última broa com o meu velho. Estou a gozar, calma.

Resumidamente, a coisa não tinha volta a dar, mas agora estava à vista de todos porque o meu pai parecia o Gollum e não havia um Dr. House para o curar. Agora deixo esta questão a todos os deputados que ontem votaram contra: estando o meu pai em pleno uso de todas as faculdades mentais, mesmo contra a minha vontade (essa seria a minha posição e a dele!), sofrendo diariamente dores que espero nunca vir a sofrer, não conseguindo dormir uma noite como deve ser, entubado até onde não havia buracos, espetado por mil agulhas de todo o tamanho e feitio - e após ter servido o País de forma muito mais honrosa que qualquer um de vocês seus cabrões papa-subvenções - pergunto: ele não podia pelo menos ter o direito de escolha? Pelo menos tinham metido essa opção em cima da mesa para além de ficar a definhar aos poucos. A única opção era decompor-se como um pedaço queijo deixado ao ar? Era de loucos eu concordar com isto, mas ele devia ter essa hipótese. A opção entre viver mais uma semana em sofrimento ou sair de fininho com tudo controlado. Ele decidia hora, quem estava presente e o que dizer a cada um. Foi mais fixe eu receber uma chamada às 4 da manhã, ainda por cima com um toque da Nelly Furtado no telemóvel (nunca mais ouvi essa merda!).


“Toda a vida é sagrada”. Belo slogan caça votos. Parece que quando chegaram à conclusão que esta doença podia estar ligada à radioactividade dos equipamentos de comunicações dos submarinos a que o meu pai (e outros submarinistas) foram expostos durante décadas e que ceifou a vida a vários dos seus camaradas (todos com doenças do foro oncológico), estas vidas senhores deputados, não foram assim tão sagradas durante décadas de serviço à nação. Parece que até hoje em dia a saúde e o bem-estar das pessoas são colocados em segundo plano (basta ver o caos do SNS). Não se preocupem, por agora são simples utentes sem médicos e enfermeiros suficientes para vos tratar, mas quando estiverem com os pés para a cova, são sagrados. Amen. Nem um doente às portas da morte eu vi a falar na TV. Zero. Quem melhor? Pergunto novamente: quem são os melhores entendidos na eutanásia senão quem está prestes a bater as botas? Tal e qual tivemos durante anos grupos de homens a proibir mulheres de optarem pelo aborto, temos o pessoal cheio de saúde a decidir pelos futuros defuntos. Vão perguntar a quem está de cama o que preferem. Talvez nenhum queira.

Mas pelo menos ficavam a saber que a sua opinião era levada em conta (os que falassem!).

Ele não ia querer a eutanásia. Nem eu. Nem ninguém da família. Mas havia essa opção. Só isso.

Parece que a vida só é sagrada quando não vale a pena ser vivida...

T-shirts

t shirts do ruim

T-shirts do Ruim na loja online do Cão Azul.

COMPRAR T-SHIRTS

O Livro do Ruim

livro do ruim

A compilação dos melhores textos da página e com prefácio do não tão conhecido Quimera.

COMPRAR O LIVRO

Quem?

ruim o rui conceicao

O auto-proclamado autor, guionista, blogger e comediante.