A meia dúzia de dias de completar 36 anos de vida, ganhei uma nova perspectiva sobre a vida e os sinais que decidi ignorar. Ninguém faz 30 anos aos 30, porque quando fazemos 30, ainda temos 29. Aos 31 é que ganhamos a noção de que fizemos 30 e assumimos a nossa “trintice” até por volta 35. Mas aos 36? Isso é quase 40. Os sinais estavam bem presentes e eu decidi ignorá-los numa tentativa inglória de manter os meus 30 bem vivos.

Eu devia ter percebido que algo se passava quando perdia mais de 5 minutos a ver as promoções dos folhetos dos supermercados. Nenhuma pessoa de 34 anos perde tempo com isto, o máximo que faz é reclamar da quantidade de folhetos que teimam em entupir a caixa do correio e manda-os fora de seguida. Hoje em dia? Vinte cêntimos de desconto no atum enlatado à quarta-feira é dinheiro e há bagatelas que um homem de 35 anos (quase 36) não pode - e nem deve – deixar passar.

O que me leva a outro sinal que ignorei até agora: a forma como encaro onde gasto o meu dinheiro. Passei de não me importar de largar 10€ por um gin servido num aquário com salada mista, para me indignar com a subida de 2€ no preço do kilo de dourada. Com isto já somo duas referências a pescado, o que me leva ao terceiro sinal: a minha relação com a alimentação.

Se nos meus “vintes” ficava satisfeito com bifes de cogumelos à discrição por 12€, os trintas vieram guarnecidos com um sentido mais refinado de exigência e passei para “beef au champignon servide com alte cagance” a 20€. Hoje em dia peço para grelhar os bifes e uma salada verde a acompanhar, caso contrário, fico três horas a digerir natas e cogumelos pelo rabo. O que me leva a outro ponto interessante: a preocupação com a saúde.

Ainda ontem espirrei e fiquei com o braço dormente e a sentir ligeiras picadas na mão. O meu primeiro pensamento foi “tenho SIDA e vou morrer!”. Estou a ser um idiota, mas não fica longe da realidade. Neste último ano comecei a ter dores em partes do corpo que não sabia que tinha, o que me levou várias vezes a uma farmácia à procura de soluções desconhecidas para problemas que não existem a não ser na minha cabeça. Eu conheço – nas calmas – os nomes de alguns vinte medicamentos de cor. Há cinco anos eu só conhecia o Guronsan, o que me leva de forma conveniente à próxima questão: a resistência ao álcool.

Quatro imperiais (ou finos, se estiverem a ler para lá de Leiria), dois moscatéis e meia garrafa de branco. Isto era enquanto a refeição não vinha, para ajudar a empurrar o pão e as azeitonas. Se eu hoje em dia beber duas morangoskas numa noite quente de Verão, sou capaz de saltar para o capot de um carro, despir as calças, sacar do “menino”, dizer aos turistas “do you like portuguese meat?”, desmaiar imediatamente a seguir e só acordar na quarta-feira da semana seguinte com uma dor de cabeça inimaginável. O meu threshold álcoolico é de uma morangoska e faço questão de perguntar se os morangos são frescos (se o senhor for simpático, falo-lhe de uma promoção de morangos que vi num folheto). Mais que isto e fico dois dias de cama com oito tipos de ressaca diferentes a pedir a Deus que me leve de vez. Isto tudo sem ter crianças à minha volta a tornar pior uma situação que por si já é má, o que me leva ao último dos pontos que confirmam os meus 36 quase 40: bebés.

Aos vinte eram o inimigo mortal que me faziam lembrar de comprar preservativos, aos trinta eram motivo de reflexão sobre se era a altura certa para os ter e hoje em dia tenho receio de não ter energia para fazer um.

O meu conselho final é este: não façam 36 anos, comam salada e fiquem atentos aos folhetos que estão na vossa caixa de correio.

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