E outro engraçadinho respondeu, tal e qual empregado de mesa, que a praia já estava feita e era só preciso uma toalha e protector solar. “Fazer praia” é a tradução em língua portuguesa para “vacations without money”. Há coisa de uns meses era ver-me a passar pelas montras das agências de viagens, a fitar as ofertas de fugas paradisíacas de sete dias com tudo pago para destinos exóticos só para acabar comigo a murmurar “se calhar vou para a Costa este ano…!”. Tal como o ano passado. E o ano antes desse. Não me interpretem mal, porque eu adoro “fazer praia” na Margem Sul. Aliás, eu cresci a “fazer praia” e descendo de uma fina linhagem de pessoas que gostavam também elas de “fazer praia”. 

Comecei por ir com os meus pais nos anos 80. Fila de trânsito para a praia, uma hora para arranjar lugar, gritaria no carro com ameaça de voltarmos todos para trás, duas horas à torreira no areal, fila novamente para sair, chegar a casa todos zangados uns com os outros, banho com água tipo lava à pala do escaldão e, para terminar, todos sentados à mesa de roupa interior e besuntados em creme para um lanchinho de ameijoas compradas à vinda, fazendo o meu pai sempre questão de dizer "que dia de praia fantástico! Ainda bem que amanhã há mais!".

Ir à praia em matilha é coisa de adolescente e as regras eram apenas duas: só vamos à praia para ver gajas e quem trouxer um chapéu de sol é maricas. Não havia chapéu de sol, água ou comida. Era quase obrigatório ir de calções, toalha e garrafa de água das pequenas. Todo e qualquer um que levasse mais do que isto, era excomungado. E “fazer praia” nesta idade resumia-se a estar duas horas deitado a comentar tudo o que fosse rabo no raio de 500 metros e voltar outra vez para casa quando começasse a cheirar a cancro da pele.

Quando finalmente ganhamos juízo na cabeça, iniciamos o ciclo de “fazer praia” com um guarda-sol. Cabe ao homem levar o guarda-sol, espetar o guarda-sol, tirar novamente o guarda-sol e levá-lo novamente consigo tipo carabina de caça grossa. Se virem uma mulher a fazer isto, já sabem quem é que veste as calças lá em casa e leva no focinho. Por outro lado, cabe à mulher cortar melão em cubos e pôr num tupperware (não há cá igualdade de género em “fazer praia”).

Se fores um triste que vai para a praia sozinho, muito provavelmente vais acabar por ser entrevistado por um jornalista de um canal generalista que irá fazer aquela questão que todos têm na cabeça quando vêm alguém deitado numa toalha na praia: "Gosta de praia?". Dá vontade em lhe dar com um tupperware de uvas no focinho, mas fiquem-se pelo singelo "sim...", mantenham-se em silêncio e esperem pela próxima pergunta genial. Guarda-sol é opcional. #sillyseason

 

“E eu que sou boazuda e não tenho namorado, Ruim? Como é que posso fazer praia?”

 

Ser uma gaja boa e ir para a praia hoje em dia também não é fácil. Tens de levar comida, bebida, guarda-sol, assistente de guarda-sol, pára-vento, assistente de pára-vento, pareo, toalha de praia, um amigo fotógrafo para as fotos que vais tirar a sair da água totalmente desprevenida, tripé da máquina do fotógrafo, comida para o fotógrafo, uma amiga cabeleireira para arranjar o cabelo para as fotos desprevenida na toalha ou à beira-mar a olhar de forma contemplativa para o mar, comida e bebida para a cabeleireira - E ESTAS GAJAS COMEM BEM #badumtss, um flamingo insuflável e a sua ração. Menos a noção. Levam tudo menos isso.

Se por esta altura o vosso amigo desempregado já se encontra a fazer praia e está farto de meter nojo com fotos no Insta de ele a "fazer praia", respondam-lhe com uma foto de um contrato de trabalho. Só por causa das merdas.

Boa praia a todos.

#praismo

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