Fazer mais de 1000 quilómetros com um bebé num carro oferece-nos uma perspectiva diferente da vida, o valor da amizade e o preço dos contraceptivos. Se eu e os meus amigos fomos um Sistema Solar em constante movimento, este bebé era o Sol pois tudo girava à sua volta. Tudo foi preparado para que Sua Alteza o Rei-Bebé tivesse uma viagem de luxo, enquanto nós fomos feitos indianos num autocarro no centro de Mumbai à hora de ponta. Carrinho, “ovo” (agora já sei o que é!), cama, fraldas, toalhinhas, toalhões, toalhetes, cremes, etc. Eu até suspeito que eles tinham um bebé sobresselente numa das malas, caso o primeiro deixasse de funcionar.

- Tudo pronto, pessoal?
- Bora!
- Ok, aqui vam…
- Vamos ter de parar na próxima estação de serviço para lhe dar de mamar…

E foi assim que eu fiquei totalmente dessensibilizado a mamas. Vi mais vezes as mamas da mulher do meu amigo em dois dias do que as da minha mulher em dois anos. Do desconforto inicial que sentia ao vislumbrar 3% de um seio ao ponto de me sentar em frente a ela a perguntar se ela punha alguma coisa nos “pacotes de leite” porque o miúdo parecia um bezerro a mamar. Não tinha ideia que os bebés precisavam de mamar tantas vezes ao dia nem da quantidade de leite que uma mulher consegue gerar sem definhar às mãos daquele pequeno sugador de vida alheia.

Um dos meus momentos preferidos era quando ficávamos a sós com o pai da criança a olhar para o Pequeno Lorde e ouvíamos um pouco da sabedoria de quem é pai há cinco semanas. O brilho nos olhos daquele homem dispensava quaisquer palavras, mas ele fez questão de dizer entre sorrisos que não dormia há mais de um mês! Aproveitou para pegar no Ditador Bochechas e nos impressionar com a sua mestria na arte de “Como agarrar num bebé sem parecer um atrasado mental”. Batemos palmas quando ele o agarrou com um braço e o colocou numa posição tipo macaco num ramo (diz ele que assim aliviava às cólicas). O meu outro amigo pegou no bebé da mesma maneira, nós elogiámos e depois foi a minha vez de o fazer com direito a uma pequena dançazinha polka que me valeu uma valente ovação dos restantes. Visto de longe parecíamos uma trupe de circo a fazer malabarismo com um bebé, mas o momento mais alto da viagem ocorreu quando a Liquidificadora Humana transformou todo aquele leite ingerido em pasta de Nesquik na fralda. Eu nunca tinha visto merda de bebé, vou ser sincero. Nem nunca tinha pensado que um bebé pudesse esguichar merda do rabo, por isso, foi com grande regozijo que vi cagamerdeira a ser disparada de forma multidirecional como se estivesse a ver um Pequeno Pasquiat a pintar uma tela. Numa dessas ocasiões fomos informados que o Budinha tinha – e passo a citar – “merdas nas costas”. Bravo, Pequeno Cagão. Orgulho dos pais e dos amigos do pai.

Mudar uma fralda não é assim tão complicado quando se está de fora a olhar para as pessoas que o estão a fazer e a discutirem sobre o paradeiro dos toalhetes e da chucha. “Para a próxima engole…” disse eu e o meu amigo à mãe. Não ajudámos à festa, mas fomos uns excelentes assistentes na ciência da puericultura. Também percebemos que um bebé é o maior wingman na arte de conhecer gajas, mas elas não achavam muita piada quando dizíamos que o bebé tanto podia ser nosso como do pai dado que a mãe tinha girado tipo roleta de casino por todos na noite em que o petiz foi concebido. Nós ríamos, o bebé também e elas zarpavam para longe. Nada de diferente, portanto.

O que interessa no final desta viagem é que tapámos os olhos ao bebé quando passou por nós um senhor demasiado entusiasmado a comer um Calippo e isso mostrou à mãe que o pai e os “tios” estão cá para o que der e vier na vida desta criança.

P.S: já mostrámos porno ao miúdo.

Desculpa, mãe da criança.

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