Um pastel de nata, um café e um apocalipse!

A primeira vez que eu vi o clássico “A Noite dos Mortos Vivos” do George Romero por sugestão de um amigo mais velho, lembro-me de ter expelido três tipos de medo de quatros tons diferentes pelo rabo. Mortos que andam e grunhem? Isto era outro nível. Fantasmas, assombrações e outros espíritos ainda vá que não vá, mas zombies pareceu ser algo perfeitamente plausível de poder vir a acontecer um dia. Eu cresci com medo de seres sobrenaturais e, de repente, eles passaram a ser porreiros tais como um tio motoqueiro ou uma prima fresquinha. Fizeram isso com os vampiros e com os lobisomens. Passámos de ter medo de ser mordidos a querer morder um deles e a passar-lhe a mãos nos abdominais.

E qual foi o mundo em que eu acordei um dia?

O mundo de “era tão fixe que houvesse um apocalipse zombie” à pala daquela série que já devia estar mais que morta e continua a levantar-se da campa season após season. Até temos jogos no telemóvel em que lutamos contra zombies com girassóis que cospem ervilhas. Nós continuamos com medo dos zombies, mas é não é um medo “ahhh, zombies” é mais “wow, zombies!”. Deixámos de recear os mortos-vivos e agora até os chamamos de “walkers” como se fossem todos rangers do Texas. Uma pequena parte de nós quer viver aquela experiência do apocalipse, andar de mochila com uma catana de um lado para o outro a fazer raids a farmácias e armazéns ou até conhecer um vilão sensual de taco de baseball nas unhas e passear com um tigre (sim, agora há um gajo com um tigre!).

Na eventualidade de ocorrer um apocalipse zombie no nosso país, como é que acham que a coisa se iria dar? Seria muito complicado perceber quando o apocalipse começasse em Lisboa, pois a confusão é tal que o primeiro zombie seria recebido com “não tenho tabaco seu drogado, deixe-me em paz!” por parte de um transeunte de cornos no smartphone. Aliás, as pessoas só iam reparar no que se estava a passar quando a internet fosse abaixo e seria nesse momento que o pânico geral se instalaria.

“O que é isto? O fim do mundo e eu não posso Instagramar a coisa? Matem-me!”

Portugal não é só Lisboa e Porto, mas os centros urbanos seriam os primeiros a ser afectados por culpa da centralização. Milhares de portugueses espalhados pelo país iriam assistir aos directos da CMTV sobre o apocalipse zombie em Lisboa e Porto e diram “estes gajos das cidades é que têm direito a tudo! Um gajo aqui não tem nada para se entreter!” até que um grupo de presidentes de câmara do interior indignados com o facto de ainda não haver zombies em Nelas ou Lajeosa do Dão, criasse pacotes de incentivo a todos os zombies que quisessem zombificar aldeias desertas no interior (sempre se resolvia este problema). Coitados dos zombies, pois não iam ter ninguém para comer quando lá chegassem e isto se um incendiário não lhes pegasse fogo a todos durante o caminho porque é gente que gosta de puxar lume a qualquer coisa que lhes passe à frente. Eu adoro o Alentejo. Não seria de estranhar que os zombies também quisessem lá passar e seria engraçado vê-los a arrastar-se por Beja enquanto uns senhores de boina num café dizem "então mas estes meninos da cidade julgam que isto é a meia-maratona? Mais devagar, maganos!". Em Trás-Os-Montes eram recebidos como família e poderíamos muito bem assistir a fotos de almoçaradas entre zombies e transmontanos de posta mirandesa na mesa com a legenda "a ensinar a esta malta estranha de Lisboa o que é carne como deve ser!". Mais a Sul era ver os zombies a serem recebidos com o típico "You want a tour? Best tours in Allgarve. How many are you? 15000? I make discount!". Este apocalipse estaria destinado ao fracasso porque o nosso feitio regionalista iria colocar obstáculos ao fim do mundo.

Assumindo que os centros urbanos e o resto do país ficavam cheios de zombies, acham que seria possível criar grupos de sobreviventes? Vocês nem conseguem reunir os vossos amigos todos para um jantar de aniversário e agora querem brincar aos apocalipses? Por exemplo, a Cláudia. Conseguimos aturá-la numa saída para o Bairro ou para o Cais do Sodré, mas querem mesmo estar fechados com essa pêga num espaço fechado sem nada para comer? Quanto tempo iriam demorar até que a empurrassem para os zombies e diziam os restantes “estava farto da voz desta gaja, f#da-se!”.

Deixem-se de coisas e comecem a ter medo de zombies a sério. Crianças!

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