Nenhum homem encara a perspectiva de ir conhecer o sogro com um sorriso nos lábios. Entre ir conhecer oficialmente o pai da rapariga que teve a amabilidade de se deixar enganar pela cantiga do bandido ou entalar os tomates na braguilha numa casa de banho pública, muitos optam por sacrificar um testículo em prol de se escaparem a esta inevitável situação.

Existe um conjunto de regras básicas que se podem seguir para minimizar possíveis danos de algum mal-entendido. Assim de cabeça, começar com “tá-se bem, meu puto?” e um sapão no cachaço parece-me má ideia. Também não é preciso entrar na casa do homem e ficar prostrado aos pés a fazer-lhe vénias enquanto se grita “Grande Ancião dos Moinhos da Funcheira! Ilumina-me com a tua luz, tal como iluminaste a Deusa que me acolheu!”. Se mantivermos a coisa num nível de “Como está?” seguido de um aperto de mão firme, a coisa não deve correr mal. Isto leva-me ao segundo ponto a ter em atenção: o cumprimento. O aperto de mão diz muito sobre um homem, especialmente se ele não vos apertar a mão por saber que andam a malhar tipo ferreiros medievais na própria filha. Mas se o homem não for um completo sociopata, o vosso cumprimento será retribuído e o mesmo deverá ser dado com firmeza (mas sem abusar). Menos que isso, ele pode assumir que a filha trouxe uma amiga feia para jantar e nada mais.

Observem com atenção o ambiente em que estão inseridos. Procurem molduras com fotos de pescaria, caça ou modelos de automóveis clássicos. Tudo isso pode servir para quebrar o gelo entre os dois. Cuidado com cabeças de veado empalhadas na parede. Se um gajo se dá ao trabalho de transformar a cabeça de um mamífero morto num bibelot, qualquer conversa sobre isso sem ter um profundo conhecimento sobre decapitar veados não vai acabar bem para o vosso lado. Se foram jantar, elogiem sempre a comida. Sempre. Mesmo que esteja uma merda. Por favor, não elogiem a beleza da vossa sogra ou podem acabar como o veado (futuramente podem fazer essa piadinha). Se não têm nada de inteligente para dizer, calem-se! Não tentem armar-se em sabichões, engraçadinhos ou entendidos no que quer que seja. Acreditem que EU SEI o que estou a dizer.


"Ruim, fala-nos do que interessa. Tu sabes do que estamos a falar!"


Sei. O que dizer quando ficarem a sós? Ainda bem que falam nesse assunto, porque eu tenho uma larga experiência em ficar a sós com homens de 60 anos sem saber o que dizer. Antes de mais, é preciso entender que esse homem tem um pensamento e apenas um único e exclusivo pensamento na cabeça:

“Quem é este gajo que anda a comer a minha filha e está aqui em minha casa a lambuzar-se depois do jantar que eu paguei e com cara de quem está a criticar a minha cabeça de veado empalhada?”

Eu aposto sempre na profissão. Mostrar que se é uma pessoa interessada em trabalho é meio caminho andado para quebrar o gelo de forma suave. Para tal, devem ter conhecimento prévio da profissão actual (ou anterior se for um reformado) para se conectarem. Profissões interessantes: médico, militar, talhante ou gestor. Profissões de merda: polícia, feirante ou dono de uma casa de alterne. Como disse? Sim, sim. Ahhh, vocês não tinham percebido a razão deste testamento todo? Eu passo a explicar: eu tive um sogro que tinha uma casa de alterne, ou seja, uma casa de putas. Fui almoçar com o velho, sempre com essa informação na cabeça enquanto uma voz ecoava na minha cabeça “não fales na casa de putas, não fales na casa de putas, não fales na casa de putas!” Podem vir com todas as vossas histórias embaraçosas de sogros que dificilmente batem o ataque de Tourette profissional “o seu trabalho é fodido… literalmente…”, ficar um silêncio de merda e eu rematar com “conte-me a história da cabeça de veado que tem na parede!”.

Eu não sei minimamente o que vocês devem fazer quando conhecerem o vosso sogro. O sogro é vosso, foda-se. Desenmerdem-se! Só queria falar na cena da casa de putas.

No regrets.

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