Da primeira vez que tive contacto com o sarcasmo fiquei extremamente confuso. Como é que é possível alguém estar a dizer alguma coisa, mas não estar realmente a dizer aquela coisa que está a dizer? E porque razão o faz? É maluco? Eu tinha desculpa em pensar assim porque tinha dez anos.

 Este foi o ano que finalmente percebi que estou rodeado de um grande número adultos com dez anos, uma massa gigante de indivíduos com direito de voto e que não tem a mínima ideia do que é sarcasmo, ironia ou qualquer outra figura de estilo. O Ricardo Araújo Pereira usou a expressão “infantilização da linguagem” para descrever de forma precisa a maneira como este grupo interpreta as palavras e usou um exemplo prático bastante engraçado: quando dizemos a uma criança “PÁRA QUIETO!” e ela fica parada na posição em que estava como se tivesse sido “congelada” pelas nossas palavras. Esta criança fez uma interpretação literal daquela ordem, aliás, ela escolheu interpretar as palavras daquela maneira porque os miúdos são bastante imaturos e palermas. Os adultos que interpretam as coisas de forma literal dividem-se em dois grupos: os que não percebem o sentido e intenção das palavras e quanto a esses não há muito a fazer porque nem todos podemos ser doutores e engenheiros e, um grupo bastante mais idiota e infantil, os que decidem dar um sentido e intenção às palavras porque lhes convém.

Vamos pegar num exemplo prático de algo que aconteceu em 2018 e que envolveu alguém ligado à grupeta do RAP: Zé Diogo Quintela. O nosso caro padeiro gourmet que perdeu tanto de peso como de dignidade quando decidiu ser cronista no Correio Manhã, escreveu uma peça com o título “Oncolamúrias” em tom sarcástico a propósito das crianças com doenças do foro oncológico receberem tratamento em contentores no Hospital São João do Porto. De forma resumida, o nosso ZDQ (o pessoal do Gato pode usar siglas!) disse que as crianças não têm nada que se queixar, falou no défice nacional e ainda conseguiu meter a Síria ao barulho. Também eu achei uma vergonha que um dos nossos grandes nomes do humor se tenha vendido ao Correio da Manhã, mas tive de aceitar a situação. O que também foi uma vergonha nacional e que em nada me surpreendeu, foi o atestado de ignorância que milhares passaram a si próprios quando decidiram reagir a este artigo via redes sociais. Num grupo tivemos as pessoas revoltadas que passaram o 9º ano de escolaridade a desenhar palmeiras num caderno pautado em vez de estarem com atenção às aulas de Português quando se falou de figuras de estilo. Neste grupo estavam incluídos alguns dos pais cujos filhos estavam a receber tratamento nos contentores e, para ser sincero, se é para recuperar de um cancro e ir viver com dois acéfalos que não sabem o que é sarcasmo e ironia, mais vale ficar no contentor a colar pensos de morfina na testa. Outro grupo interessante, mas não menos idiota, são os que perceberam o sentido do que foi escrito, mas gostam de implicar e entrar no comboio do histerismo da justiça social do que se pode ou não se pode dizer. Menção especial ao terceiro grupo que leu o texto, percebeu ao final de um parágrafo o que ali vinha e terminou a pensar que o artigo estava fraquíssimo e sem imaginação nenhuma.


Intenção? Chamar a atenção para um problema grave da nossa sociedade. Formato? Artigo sarcástico praguejado de ironias e referências mal escolhidas. Resultado? Um povo cibernauta iletrado revoltado por não ter capacidade de interpretação ou simplesmente porque gosta de mostrar revolta (tema a abordar na próxima parte).

Infantilização da linguagem é isto. Eu até dizia para eles pararem quietos, mas corro o risco de ter meio milhão de pessoas “congeladas” no meio da rua.


Para a próxima semana: “A Liga da Justiça Social”

 

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