Não acho que as doenças sejam uma moda, tirando a parvoíce da pancada com o glúten. Os celíacos não podem ingerir alimentos com glúten, os restantes idiotas acham que glúten é milho importado. Mas os nomes das doenças desempenham um papel importante na forma como as encaramos. Por muito graves ou menos graves que sejam, nem todas as doenças seriam tão assustadoras sem o nome que têm.

O exemplo mais flagrante é a “doença das vacas loucas”. Se eu entrasse numa festa universitária e passasse um rapaz de tanga com orelhas de coelho a correr por mim eu diria “o Tiago tem doenças das vacas loucas!”, pois faria todo o sentido. Sim, aquele gajo tem um comportamento que eu associo totalmente à doença das vacas loucas. Se me dissessem que o Tiago tinha doença de Creutzfeldt-Jakob, eu assumia automaticamente que o Tiago tinha dez minutos de vida. A nomenclatura faz toda a diferença. Se recuarmos ligeiramente no tempo das grandes pandemias, constatamos que este fenómeno é tudo menos recente.

A peste negra. Ui! Aquele gajo tem peste negra. Longe daqui, porque eu não quero peste negra no casaco. Peste negra só pode ser algo terrível, certo? No entanto, se me disserem “aquele gajo tem peste lilás” eu diria que o mal dele era sono e nada como uma sesta para uma pessoa se sentir logo outra. A adjectivação aqui foi essencial no marketing desta calamidade. Até mesmo os daltónicos que não ligavam à cor da peste ficaram a saber que também podia ser chamada de peste bubónica. Eu não sei o terror que há na palavra bubónica, mas que ela mete medo, lá isso mete. Tal e qual como foi com a gripe espanhola. Estava tudo bem com a gripe cá do sítio, de repente ela ganhou uma nacionalidade e morreram entre 50 a 100 milhões de pessoas. Também se passou algo semelhante com a gripe suína ou a das aves. Se uma galinha ou um porco espirrarem, achamos todos muito engraçado e até gravamos um vídeo para o Youtube com o título “cute sneezing pig” ou “awesome constipated chicken” mas assim que se associou o vírus Influenza à espécie, perdemos todos a cabeça.

“O Tiago está com febre!”. O Tiago que tome um Brufen. “O Tiago está com febre… amarela”. Adeus, Tiago.

Bastou dar uma demão de cor à febre para começarmos todos a fazer preparativos para o funeral do Tiago.

E depois há a questão de estar ou não na berra. Há quantos anos é que não há uma corrida contra a SIDA? Porque é que deixámos todos de correr ou de usar lacinhos no blazer contra a doença-fetiche dos anos 90? Porque deixou de ser assustador. Deixámos de ver a gorda da Abraço! na televisão, o Magic Johnson ainda está vivo e uma coisa levou à outra. Se alguém se chegar ao pé de mim e dizer “ah, tenho SIDA”, eu empresto-lhe o meu casaco.

As doenças precisam de ser agenciadas. Ter alguém que lhe dê um rumo na carreira para não acabarem como a SIDA. Olhem para o cancro. O cancro é os Rolling Stones das doenças, velho como tudo, mas ainda rompe meia sola. Nunca sai de moda e as pessoas fartam-se de correr contra ele. Curiosamente, não existem muitas corridas conta a obesidade por parte de quem sofre dela e esta "abrir aspas aéreas" doença "fechar aspas aéreas" é a que precisa mais de corridas (principalmente por parte de quem sofre dela). 

O nível de sucesso de uma doença pode ser medido pelo número de corridas anuais que se fazem contra ela.

Mas não é por isso que vou começar a correr, porque elas passam muito bem se eu ficar no sofá.

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