O meu conhecimento e gosto por carros é nulo. Aquilo vai do ponto A ao ponto B e é para isso que serve. Sei que vindo de um gajo da Margem Sul é como ser-se da Beira Interior, e dizer que não gostamos de beijar a nossa irmã na boca. Sei que eles levam gasolina. Sei que eventualmente aquilo também leva óleo aqui e ali. E sei mudar um pneu. Mas sei algo também muito útil: a coreografia do condutor apeado! Faz-se principalmente quando se leva uma gaja à pendura que espera sempre que qualquer gajo ao volante tenha tido formação na Williams-Renault.

Passo 1 - encostar o carro à berma e fazer um ar de interrogação com olhos semicerrados como quem diz “apesar de estar aqui dentro do carro, já tenho várias suspeitas sobre o que causou isto”. Ela sorri e diz “ora que chatice. Queres ajuda, amor?”. Duro que é duro recusa sempre e diz “achas????? Deixa-te estar aí…”

 

Passo 2 – procurar a merda do colete refletor que teima em não aparecer na bagageira por entre sacos do McDonald’s de Maio (as batatas ainda tão boas, by the way), dois chapéus de praia, uma t-shirt manchada de vinho e aquilo que dá choque nos carros para eles pegarem que eu não sei o nome mas que comprei no chinês. Ela brinca no telemóvel.

Passo 3 - tentar lembrar da merdas das aulas de código em 1900 e rata da prima da distância do triângulo ao carro. Ninguém sabe essa merda, vão-se foder.

Passo 4 – novamente perder mais tempo à procura do manípulo para abrir o capot mas sempre com cara de que aquilo não está a abrir porque tá perro, não porque eu sou um nabo do caralho. Ela olha e sorri mas continua distraída com o telemóvel.

Passo 5 – abrir o capot e assumir a posição “gajo a olhar para o motor como se tivesse perfeita noção do que está a ver”. Ela larga o telemóvel e está encantada, insuspeita que o gajo que está ali percebe tanto daquilo como ela.

Passo 6 – abrir uma tampa ou duas de um sítio qualquer. Espreitar. Abanar a cabeça. Ver se á volta alguém está a ver. Voltar a fechar as tampas. Ver o nível do óleo e emitir sons tipo “hummmmm”. Durante este tempo todo manter sempre uma cara séria enquanto se faz contas mentais do tempo que a Brisa demora a aparecer.

Passo 7 – a Brisa aparece, o gajo dá duas voltas numa coisa qualquer vá-se la saber onde no motor e diz “tente lá agora”. Depois diz algo tipo “isto foi a correia do distribuidor do sinobloco com a válvula que está desgastado do TDI 50 cavalos do coiso” ao qual eu confirmo como se aquilo não me tivesse soado a lituano. Ela pergunta como é que eu não vi isso. Eu respondo que isto era a minha suspeita inicial mas como o carro veio do mecânico há pouco tempo não pensei ser possível. Ela diz que eu fui enganado pelo mecânico. Eu mando-a para o caralho e que se cale se não quer ficar ali na A2.

Passo 8 – ir pôr gasolina e meter água no mija-mija na bomba mais próxima pelo sim pelo não.Não é preciso saber, basta fingir que se sabe. E obrigado senhores da Brisa e todos aqueles que safam nabiços como eu.

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