Lembro-me do primeiro dia de escola como se fosse hoje. Estava de mão dada com os meus pais no pátio empredado da Escola Básica nº1 de Alhos Vedros e olhar para os outros miúdos com ar de parvo a perguntar-me a mim mesmo porque estavam a chorar. Ao longe, um até aí desconhecido Tinoco tirava macacos do nariz e colava-os numas barras de ferro que faziam de separadores para a entrada (foi amor ao primeiro macaco e ainda hoje ele continua a fazer o mesmo).Lembro-me do primeiro dia de escola como se fosse hoje. Estava de mão dada com os meus pais no pátio empredado da Escola Básica nº1 de Alhos Vedros e olhar para os outros miúdos com ar de parvo a perguntar-me a mim mesmo porque estavam a chorar. Ao longe, um até aí desconhecido Tinoco tirava macacos do nariz e colava-os numas barras de ferro que faziam de separadores para a entrada (foi amor ao primeiro macaco e ainda hoje ele continua a fazer o mesmo).

Para mim tudo aquilo era excitante, novos amigos, ir aprender como as coisas funcionam, somar, subtrair, multiplicar e esperançoso que finalmente os balões de diálogo do Astérix comecem a fazer sentido. A minha professora de primária chamava-se Luísa. Dona Luísa. Senhora, digo eu, na casa dos 40 com um vasto currículo de ensino. Foi com ela que aprendi a ler, a escrever e a contar. Foi ela que corrigiu a minha letra e me deu palavras de conforto quando fiquei complexado por ser canhoto. Quatro anos esta senhora fez parte da minha vida e até hoje nunca mais a esqueci. Fiz tudo correto até ao 9º ano. Era aluno de excelentes, cincos e vintes. O que é que se passou então? Se o sistema de ensino e os meus pais fizeram tudo o que puderam, o que é que se passou para o comboio descarrilar?

 

O meu problema a nível académico tem e sempre teve um nome: matemática. Metam os problemas do Joãozinho e as laranjas no cu mais as velocidades dos comboios. Há cabeças que simplesmente certos conceitos e pensamentos abstratos não entram. Eu ainda tolerei quando meteram vírgulas nos números ou até tracinhos com um em cima e um em baixo. Quando aquilo começou a levar letras foi quando atingi o meu limite. Se estávamos tão bem com os 8, 7, 32 ou até mesmo um 174 porquê é que de repente metem um x? E um y? E de repente um z. E aqui de nada vale a minha excelente memória fotográfica. Matemática percebe-se e não se decora, e eu bem tentei chegar a um consenso com o meu cérebro: 

“O que é isto? Lamento não há espaço para isto. Estamos cheios”

“Mas cérebro, eu preciso mesmo de aprender isto. Não podes fazer um esforço?”

“Um quê? Olha estava aqui a pensar nas mamas da Ana. Não é bastante mais giro?”

“Cérebro por favor, não me faças isto. Ajuda-me a aprender isto para passar de ano”

“Ruim, tens 14 anos. Estás a mudar de voz. Pêlos aparecem. Borbulhas também. E eu estou com uma broa de hormonas e não te estou para te aturar. Só penso em senaita. Esquece”

“Sim tens razão, que se foda a trigonometria ”.

Não há ser mais estúpido e inútil que um adolescente em fase de autodescoberta. Aquele moço tão esperançoso de um futuro brilhante que a Dona Luísa fez um trabalho exemplar de inspirar morreu no momento que comecei a ouvir Savage Garden e a escrever cartas de amor para uma namorada imaginária. Tão bom rapazinho que eu era até começar a reparar que a Ana tinha mamas, a Sofia tinha um grande cu e que o tom de voz da Sara me deixava a transpirar. Tão bom rapaz que eu era até descobrir que havia mais prazeres que a leitura do Astérix sob a forma liquida e de fumo. Eventualmente terminei o secundário mais o Tinoco quase com notas semelhantes e até nos safamos bem hoje em dia mesmo sem canudo.

Agora pergunto eu: de quem é a culpa? Do sistema de ensino que me deu todas as oportunidades? Dos meus pais que não me deram pares de estalos suficientes e caíram no “erro” de dar sempre ao filho liberdade de escolha e pensamento mesmo que estivesse errado? Dos meus professores que sempre tentaram puxar pelo meu potencial?

Os nossos professores e os nossos pais vão tentar puxar sempre o máximo por nós mas isto é um barco em que os remos estão nas tuas mãos. Mas também se tivesse seguido outro rumo provavelmente não estaria aqui a escrever para mim/vocês.

Nem sempre os maus da fita são os professores. Nem os pais. Ás vezes e só ás vezes o verdadeiro culpado está no espelho da tua casa de banho.

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