Quem atinge a barreira dos 30 e não foi pai ainda, parece que é despromovido a não perceber nada da vida. Num dia eu era um tipo com umas ideias engraçadas sobre a condição humana e interações sociais, no dia a seguir tenho um tipo com um bebé nos braços a dizer-me que afinal eu não percebo nada e ele adquiriu de repente a sabedoria do Buda porque deu uma queca com brinde. Além disso todas as minhas supostas opiniões sobre valores, responsabilidade e disciplina deixam de ter valor porque “não és pai, não percebes”.Quem atinge a barreira dos 30 e não foi pai ainda, parece que é despromovido a não perceber nada da vida. Num dia eu era um tipo com umas ideias engraçadas sobre a condição humana e interações sociais, no dia a seguir tenho um tipo com um bebé nos braços a dizer-me que afinal eu não percebo nada e ele adquiriu de repente a sabedoria do Buda porque deu uma queca com brinde. Além disso todas as minhas supostas opiniões sobre valores, responsabilidade e disciplina deixam de ter valor porque “não és pai, não percebes”.

Ok. Aceito esta premissa que uma criança nos traga uma visão mais complexa sobre um conjunto de questões e nos encha de um sentimento de auto-credibilização. Aceito que até certo ponto, o nascimento de um filho nos transforme a essência. Já vi as maiores desmioladas da pinha, gajas que aviavam uma equipa de rugby numa sexta e afundavam os cornos em alguidares de branca ao sábado tornarem-se em mães dedicadas e extremosas sem pestanejar ou suspirar por tempos mais divertidos. Na mesma medida, vi meninas de boas famílias com a idílica fantasia de casamento branco e a ideia da maternidade se tornarem em vadias de primeira apanha porque a puta da rotina, os choros descontrolados e a falta de sono que o nascimento de uma criança provoca não foi o que lhe tinham pintado nos livros da Anita acabando por entrarem numa espiral de autodestruição de ansiolíticos e sexo casual com estranhos porque se deixaram de sentir mulheres. Ahhh Cátia Vanessa era tão giro na tua cabeça, o menino de laço todo pimpão no carrinho a passear em frente ao Tejo mas quando a primeira bojarda de merda te saltou para a boca lá se foi a lua-de-mel. Ninguém está preparado para ser mãe ou pai. Por isso, quando agora levo pancadinhas no cachaço de familiares e amigos a dizer “o próximo és tu” eu dá-me vontade lhes dar um apalpão na mulher e dizer “a próxima és tu”. A lata desta gente em achar que todos temos este destino pré-determinado de ser pai ou mãe apenas porque sim e na altura que eles foram e nos mesmos moldes. Porque tenho 32 anos? Porque a maior parte dos meus amigos já vai entrar no round 2 de bombar mais um puto e eu ainda nada?

“Mas queres ser pai?” - é a pergunta do momento que oiço em jantares.

Foda-se, claro que quero ser pai. Acham sempre automaticamente que tenho medo da responsabilidade. Que tenho receio de perder o meu estilo de vida. Que não consigo abdicar de certos pecados adolescentes e de não ter de pensar onde posso ou não gastar o meu dinheiro. Isso é muito giro e fico grato por acharem que eu e muitos somos uma cambada de atrasados mentais com complexo de Peter Pan. Se calhar, e só se calhar, eu e muitos apenas temos um grande receio: será ela? Ela. A mulher dos meus filhos. Pronto, aqui têm porque ainda não sou pai (a culpa é sempre dos outros ahahahahaha). O medo terrível de estar a trazer ao mundo uma criança com alguém que me deixa com 0,1% de incertezas. Já vivi paixões intensas que não me puxaram o mínimo sentimento de parentalidade e amores frios que até me fizeram vislumbrar um horizonte a embalar um berço mas que apenas confirmaram os meus receios de nunca o ter concretizado. Parece que um Grilo Falante me dizia ao ouvido:
“Hey… tu. Não é esta. Tu sabes que não é. Sabes que ela te preenche mas não te transborda. Não vais trazer um miúdo para uma relação com falhas. Outra coisa: viste bem as mamas da vizinha? B-R-U-T-A-IS”.

Então deveremos estar sempre à espera da pessoa certa? E será que isso existe? Será que estou à espera de um unicórnio estes anos todos enquanto deveria andar de mula?

Tomemos Maria Alice como exemplo: miúda inteligentíssima de beleza ímpar, furacão solteiro e dona do seu nariz. O covil de amigas sempre a via como doidivanas, ah lá está a maluca da Maria Alice que já passou a primavera da vida, lá está esta que não atina. Ao redor dela as amigas iam assentando e engravidando com namorados de semanas e pessoas que no secundário eram uma “merda” e “que nojo, ele é mesmo feio” mas que de repente o avançar da idade os tornou “fantásticos” e “especiais” aos olhos delas. Ela não. Esperou por rapaz bíblico que nem uma Maria Madalena. Casou. Assentou. Pronto está mais gorda, mas isso não quer dizer nada. Esperou mais que as outras todas, sem pensar se iria ou não ser mãe, se iria ou não encontrar a pessoa que puxasse isso nela e sempre inerte ao que pensavam ou diziam dela (aos outros fazia-se de forte, mas a mim não me engana). As dúvidas dissiparam, o passado envolto em strobs e música sincopada passou de rotina a exceção de noite. Nunca duvidei que iria dar uma excelente mãe e o futuro me dará razão este verão. Peguemos no Tinoco agora. Além que o esperma do Tinoco deve ser roxo e seguramente trocará o filho por duas gramas de MD num domingo às 15:00 da tarde nalgum bairro da Amadora, eu acho que o que este cabrão precisa mesmo é de ser pai. Novamente, mesma história: ai o Tinoco, ai ele já lambeu frascos de Rexona porque lhe disseram que aquilo batia, ai o Tinoco que é viciado em porno alemão dos anos 70, ai (inserir aqui opinião de merda de pessoas que olham para as outras apenas de um lado). É isto tudo é. Mas é um puto com valores. É amigo. É inteligente mas ainda não sabe. Tem uma visão do mundo igual á Heidi depois de lamber uma folha de Hoffmans. E o Tinoco é daqueles gajos que a pessoa certa é alguém que não o queira matar pela manhã. É alguém que não exige muito da pessoa com que está e sei que vai ser feliz dessa maneira. Já eu e Maria Alice somos farinha do mesmo saco: queremos ter essa certeza, queremos que a pessoa com que estejamos, a pessoa que irá ser o pai/mãe do nosso filho seja alguém cuja rotina parecerá novidade todos os dias.

E eu? “Ai Ruim tu acho que vais dar um pai fantástico, todo babado, dedicado…“O CARALHO. Sabem lá. Então os outros que viveram o mesmo que eu e apenas porque fogem á norma são rotulados de lunático e encalhada e eu sou um tipo porreiro que de repente sabe mudar fraldas? E se eu mandar o puto pela janela num acesso de raiva? E se o decidir pregar á parede porque achei que daria um bom Van Gogh na sala? Ninguém está preparado para ser pai ou mãe nem ninguém deverá se tomar como excelente pai e mãe porque seguiu o caminho normal. Ser pai e mãe e é uma jornada de uma vida que só saberemos que estará completa quando eles nos meterem num lar em vez de nos mandarem por um penhasco.

Eu estou pronto para um dia conhecer alguém que me tire o fôlego num olhar e me ponha a ver o preço dos carrinhos de bebé. Alguém que oiça Sublime, goste de Star Wars e fique bem com óculos de massa. Alguém que use saltos altos mas que não tenha medo de marinar um cabrito. Alguém cujo cabelo cheire a frutas. Até pode nunca aparecer alguém assim. Não vou partir deste mundo menos feliz, mas muito infeliz partiria se o meu filho viesse ao mundo numa relação menos que perfeita. Ele não merece. Nem eu.

P.S: se depois desta merda lamechas, ninguém se oferece para me sacar UM GRANDE BICO eu JURO QUE FECHO ESTA PÁGINA e me vou foder todo para o after este sábado.

T-shirts

t shirts do ruim

T-shirts do Ruim na loja online do Cão Azul.

COMPRAR T-SHIRTS

O Livro do Ruim

livro do ruim

A compilação dos melhores textos da página e com prefácio do não tão conhecido Quimera.

COMPRAR O LIVRO

Quem?

ruim o rui conceicao

O auto-proclamado autor, guionista, blogger e comediante.