Namorar com alguém mas ter a cabeça ainda no passado é complicado. E não é justo para ninguém. Nem para mim e nem para a pessoa actual, mas se fôssemos todos escolher quem amamos então eu escolhia amar o Tinoco ainda mais. Não dá chatices, baixa manutenção e se não funcionar é dois murros no capot. É tipo um Fiat Uno mas mais escavacado.Namorar com alguém mas ter a cabeça ainda no passado é complicado. E não é justo para ninguém. Nem para mim e nem para a pessoa actual, mas se fôssemos todos escolher quem amamos então eu escolhia amar o Tinoco ainda mais. Não dá chatices, baixa manutenção e se não funcionar é dois murros no capot. É tipo um Fiat Uno mas mais escavacado.

Como soube por portas e travessas que a minha ex ia para um festival de verão com mais amigos meus, tive de engendrar uma maneira de despachar a actual durante 3 dias e conseguir ir ao festival ter com eles numa esperança vã de reavivar o que já por si estava mais que morto. Não foi difícil arranjar uma discussão para facilitar o meu objetivo e apesar de não me lembrar em concreto como a coisa correu foi sensivelmente nesta linha:
“Mas eu não tinha pedido para comprares um Magnum de amêndoas? E trazes um de chocolate branco??? Olha… ADEUS. Vou desaparecer 3 dias para um festival de música que isto assim ninguém aguenta viver.”
Deixei a outra a olhar para mim incrédula e fui a correr feito Amélia para a Herdade do Cabeço da Flauta de Quechua debaixo do braço, havaianas e Von Zipper a tapar as olheiras de choro falso que fingi para poder ir de consciência limpa (ao menos transmiti uma ideia de que tinha sentimentos). Eu não tenho jeito nenhum para montar tendas, por isso evito até dormir nos festivais e considero as Quechuas a melhor invenção a seguir ao pão de forma sem côdea. Cada vez que lanço uma para o chão sinto-me a Bulma no Dragon Ball com aquelas cápsulas que ela tinha e faziam puff.. toma lá uma nave espacial.

 

O ideal era ter cápsulas para tudo: pufff... um tacho de favas com entrecosto! pufff… uma garrafa de Jameson! pufff… uma gaja! pufff… um dealer!

Cenário

Eu, a minha ex e dois amigos nossos que só faltou sacarem dos óculos a 3D e de um pacote de pipocas a dizerem “isto vai ser giro”:

“Pode-se?” – ouvi eu atrás de mim. Era a minha namorada. Ou vamos chamar isso.

“Claro que sim e fica à vontade” – disseram os outros dois, já a renovarem o stock de pipocas.

Instala-se um silêncio de morte. Eu ainda estou a apanhar os tomates do chão e a actual chega-se ao pé de mim de imperial na mão e cigarro na outra:

“Comprei passe para os 3 dias. Também venho ao festival… “amor” ” - e lança um olhar à outra.

A ex finge que não se passa ali nada. Eu sou invisivel. Mas cumprimenta a actual com um sorrisinho forçado e um seco “oi tudo bem?”

Novo cenário

Eu, a minha ex, a minha actual e dois amigos numa rodinha de tendas com uma mesa no meio. O meu cu neste momento é um vácuo, pois de tão apertadinho não cabe lá uma ervilha. Elas fingem que isto tudo é perfeitamente normal mas não se falam e evitam cruzar olhares. Os outros já vão no 6º pacote de pipocas.Eu rezo a todos os santinhos para que elas não comecem a cruzar informações tipo datas, lugares, SMS ou mais merdas que me pudessem incriminar junto uma da outra dado que onde uma começou e a outra terminou e depois começou de um lado e recomeçou do outro é muito difuso. Além disso sou péssimo com caras, por isso deve ter sido isso que causou confusão in the first place. Os outros estão em pleno IMAX a rir que nem desalmados do suor que me cai da testa e fumo compulsivamente. Tarde demais. Uma chama a outra e vão as duas ao WC. Já fui. Tou fodido.

“Estás com medo?” - pergunta um dos meus amigos com um sorriso de Cheshire Cat.

“Não tenho medo… acho eu... “ - respondo sem tirar os olhos de ambas numa tentativa vã de ter adquirido talentos de leitura de lábios de repente.

“Achas que se vão comer?” - pergunta o meu amigo e faz um high five no outro.

“Puto… eu neste momento só peço a tudo o que há de sagrado que uma dê um soquete na outra e que se peguem as duas à pera na lama…. sim, e depois se comam”

Voltam de braço dados todas besties BFF e aos risos o que me fez pensar das duas uma: ou vou comer as duas ou a minha sentença já está ditada e estão a finalizar um plano qualquer para me deixarem no fundo do Tejo com uns sapatos de betão. E vá lá que a coisa correu bem dado que o objetivo da conversa foi para quebrar o gelo entre todos.

Ok… novo plano: quero comer as duas! Ou que se comam uma à outra e que me deixem ver. Escusado será dizer que isto correu bem porque se bem me recordo eu fui ignorado por ambas a noite toda e andei feito PANHONHA atrás das meninas. Lembraram-se até em Skrillex em me roubar a minha bolsinha das merdas (aquela que tem… as merdas que um gajo precisa). Ah que engraçadinhas não é? E riam e fugiam e eu a ficar fodido com a brincadeira decidi puxar de um ás de trunfo e ponho um braço em cada uma e digo:

“Visto que já levaram as duas no cu da minha pessoa… que tal é a sensação de estarmos aqui todos a curtir?” E não é que a minha bolsa apareceu em segundos e os risos acabaram? “Magia”! Bebemos, rimos e até por momento quase pensei que isto poderia ser algo que seria uma amizade gira. Mas bebemos demais e o álcool traz o que deve e o que não deve. Ficamos os 3 na tenda a fazer fogueirinhas nas mãos, a falar sobre o passado e desata uma choradeira da ex. Eu detesto ver mulheres a chorar e começo também eu num pranto. A actual fica a olhar tipo Fátima Lopes e decide iniciar ali uma emissão especial do “Perdoa-me”:

“Ruim... tens alguma coisa que lhe queiras dizer? E tu ex do Ruim que estou a fingir não querer esganar, regar com gasolina e jogar um fósforo… não tens nada a dizer?”

Pedi desculpa lavado em lágrimas de todas as merdas que fiz e que não fiz. Ela chorou e eu chorei mas abraçou-me e perdoou-me dois anos e meio de tudo o que se possa imaginar ser possível um ser humano sofrer às mãos de um egocêntrico sociopata. As tendas ao nosso redor tinham-se todas calado para ouvir o meu discurso de assumir que fui um grande monte de merda porque por esta altura nós éramos bem mais interessantes que a merda dos concertos de bandas que ninguém conhece de pessoas em camisas de flanela aos quadrados e barbas desgrenhadas que tocam xilofone. A Fátima Lopes ficou a olhar e a bater palminhas porque se achou a maior naquele momento e apesar de libertador, foi estranho ter a namorada actual a obrigar-nos a confessar toda a merda que somos e que fizemos à nossa ex. Isto foi a vingançazinha que ela teve por causa da discussão imaginária e soube tocar no ponto certo: sabia do sentimento que eu nutria por aquela miúda e pôs-me de joelhos a suplicar perdão pelos meus erros (já que não com ela, com a ex).

Chegando ao recinto fico a saber que a ex namorava… olha, foda-se. Retiro o que disse. Vão-se foder as duas que eu vou para a tenda electrónica.

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