A convite da Maria Alice fui uma vez experimentar o assalto ao Carnaval de Torres. Quando se diz “ir experimentar o assalto ao Carnaval de Torres” é como ir a um bar com a ideia de beber um descafeinado e depois beber uma garrafa de tequila de penalty.

Quem não conhece eu passo a explicar: aquilo não é o festejo do Carnaval. Aquilo é uma prova de endurance. Um triatlo folião. É o conjunto de testes que os indígenas Torreenses fazem atravessar os incautos forasteiros para ver se são dignos ou não do seu Carnaval, tanto que se realizam vários “assaltos” desde janeiro até fevereiro. Trocando por miúdos, é a cada fim-de-semana se arranjar uma desculpa para se mascararem, festejarem e beberem como se não houvesse amanhã. Ora, esta rena encalhada da Maria Alice já me andava a moer o juízo há anos para irmos e vamos e vamos e vamos e vamos e TÁ BEM, FODA-SE! VAMOS! Caralho... arranja um namorado.

Chegado a Torres e após passarmos 381 rotundas atravessamos por uma terra chamada Ourjiceira (Ouriceira? Ouija? Ouriçoscity? Pessoal de Torres, corrijam-me) e paramos numa terra chamada Paul (Pául? Paúl? Paulo? Caralho mais os nomes desta terra, foda-se). Entro na casa da Maria Alice e sou cumprimentado pelos seus 4 gatos: Sashimi, Temaki, Nigiri e Fujitsu (não façam perguntas, continuem a ler….) e a sua inquilina Ana Baunilha, também Torreense e com um par de mamas de proporções épicas.

1º TESTE – MÁSCARA

“Máscara? Mas eu vou fazer figura de parvo em janeiro e sair para um bar mascarado?"

Meti uns óculos à Kanye West e disse “tou pronto, vá”. Elas discutem entre as duas qual das 572 máscaras que têm vão usar e murmuram coisas estranhas enquanto olham para mim. Decidem não se mascarar para eu não me sentir mal. Na altura pensei que estas gajas me estavam a dar um grande baile. Mas bastou-me por os pés na rua para perceber a situação: eu era um romano na aldeia do Astérix (literalmente, porque vi dois Astérix e um gajo vestido de menir). Esta gente não é normal. Os únicos não mascarados éramos nós e elas olhavam para os outros com vergonha, como se estivessem a quebrar com o espirito Torreense. Estamos em janeiro e estou rodeado de matrafonas, palhaços, leões, índios e astronautas. Mas que merda é esta? Mas onde é que eu estou? Parecia que tinha acabado de entrar num filme dos Monty Python pois nem lambendo uma folha de ácidos eu consegui ver coisa parecida.

RESULTADO: NÃO APROVADO

2º TESTE – ÁLCOOL

Ok, aqui entramos no meu ringue. Sou um John Cena da pinga. Um Undertaker do vinho. Um Rey Misterio do… foda-se, já estou todo torto e estes cabrões ainda a beber tequila como se fosse Compal Néctar de Pêra Rocha. Foi duro mas aguentei o malagueiro. No final fiz sinais de gangs com os dedos e disse cenas tipo “mcwjencwjec MARGEM SUL fnha fnha, dass” e eles julgaram que eu afinal estava mascarado de rapper. Maria Alice e Ana Baunilha dizem para irmos ao “Túnel” continuar a festa e lá nos fazemos à pista.

RESULTADO: APROVADO

3º TESTE – CONHECIMENTO DE MÚSICAS DE FORRÓ E SAMBA

Que mil caralhos senegaleses me penetrem se aquela gente não sabe de cor as letras de todas as músicas brasileiras. Eles dançam, eles cantam, eles saltam, eles tudo e eu a fazer de cunanas encostado a uma parede com os meus óculos de Kanye West à espera de uma batidazinha a dois tempos. E catchapum catchapum bate co cu no meu pau bate co cu no meu pau pirrrri pirrrriii pi pipi moreeeeeeeeeeeeena eu quero é saaaaaaaaaaaaaaambar toda a santa noite eles não param. Maria Alice já estava a fazer uma endoscopia com a língua ao que se assemelhava ser um Super Mário depois de cair numa piscina de esteróides e Ana Baunilha mais as mamas a dançarem as três na pista. Decidi aventurar-me pelo sambadancefloor e no meio da confusão dou com os cornos numa parede. Fui prontamente socorrido pelo Bob Esponja e uma fada a quem eu dava uma foda, foda-se. Vou mas é ficar quietinho e bater o pé enquanto mexo os lábios a fingir que sei a letra.

RESULTADO: NÃO APROVADO.

Não tenho nada contra Ovar ou contra Loulé. Mas isto é outro nível do que é viver o Carnaval. É uma cidade inteira com o mesmo espirito, a mesma onda e mentalidade. Eles não festejam o Carnaval, ELES SÃO O CARNAVAL. Ali não se olha para pseudo-celebridades ou atrizes rejeitadas das novelas em cima de carros alegóricos como sendo reis e rainhas. Ali tu és o Rei da Festa e a Rainha da Festa. Jamais um Torrense admite vender o seu Carnaval a pessoal de fora. Querem vir cá? São todos bem-vindos, mas festejam connosco e como nós festejamos quer gostem ou não. Eu gostei. É vir todo queimado às 8 da manhã a um café e tomares a bica com 2 doninhas e 5 cartas da Alice no País das Maravilhas.

Talvez um dia ganhe coragem para ir ao Carnaval de Torres.

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