Era uma noite verão na 24 e a marcha imperial de imperiais na mão por parte de caloiras calorosas adornava uma das zonas mais movimentadas da noite lisboeta. O cheiro a burguesas sedentas de sexo não engana o nariz predador e a nossa missão é mais uma vez a mesma e a que conseguimos sempre cumprir com sucesso: conseguir não sacar nem uma gaja em milhares. Vindos do Cais do Sodré com a sede de 4 camelos da ISIS, aproximam-se 4 ursos de Ibiza: eu, Tinoco, Damásio e o Simplesmente Barroso.

 A subida até ao largo de Santos é feita num exercício de puro salutar companheirismo masculino, pois por entre acusações de homossexualidade, há sempre um ou dois estoiros nos tomates uns dos outros. A caminho do célebre “Marretas” para beber shots (porque julgamos que temos 16 anos), o Tinoco dá com a cabeça numa cadeira de rodas abandonada no meio do chão.

- “Foda-se… a cadeira de rodas está bem?” - pergunto eu.

Estoiro nos tomates do Tinoco.

- “Se isto estiver aqui quando voltarmos, vai dar merda…” - diz sabiamente o sábio Damásio.

Não vale a pena relatar o que se passa no “Marretas” até porque aqui somos todos crescidos, há pessoas com filhas e não vale a pena arranjar broncas para o lado de ninguém. Estoiro nos tomates do Damásio.

Quando saímos daquele antro de putéfias a cheirar a não-putéfias (mais do mesmo), voltamos a descer o largo para ir comer um pão com chouriço à merendeira e, por entre estoiros nos tomates uns dos outros, ouvimos um baque seco de uma cabeça em metal. Novamente, o Tinoco deu uma cabeçada na cadeira de rodas que estava no mesmo sítio de há duas horas atrás.

- “Bora!!” - dizemos eu e o Damásio em uníssono a olhar para o Simplesmente Barroso.

O nosso amigo Simplesmente Barroso faz o Tinoco parecer um Shaquille O’Neal albino de tão pequenino que é (além que pesa tanto como duas folhas de louro) e é o nosso astrobêbedo eleito para esta missão espacialmente parva.

- “Simplesmente Barroso... MONTA-TE NA CADEIRA e faz de deficiente. Ou melhor, sê tu mesmo” - diz o Damásio.

Não há dúvida que no campo da atrasadice mental, este grupo devia representar o nosso país nas Olím(piadas) Especiais, mas isto era levar a coisa demasiado à letra. Ao sentarmos o nosso amigo de forma voluntariamente obrigatória na cadeira, começamos a nossa aparatosa caminhada até à merendeira. Devo referir que a merda da cadeira já estava como nós, ou seja, em muito mau estado de conservação! Além de ter uma roda perra e aquilo travar quando lhe apetecia, ainda apresentava um ligeiro charme inclinado de Torre de Piza, pois o Simplesmente Barroso parecia aquelas esculturas que vão na proa dos navios mas com menos expressão facial. Portanto, não foi surpresa quando ao atravessarmos na passadeira com o Simplesmente Barroso que aquela merda travasse e ele se estatelasse de cornos no chão. E aqui percebemos o quanto seriamente o Simplesmente Barroso estava a levar a sua personagem, pois não se mexeu da passadeira e por ali se deixou estar a fazer sons de foca e a rolar no chão como uma tartaruguinha deslambida. O sinal abre e não há meio do Simplesmente Barroso voltar para a cadeira pelo próprio pé.

- “Simplesmente Barroso… LEVANTA-TE! Vais levar uma passa de um carro!” - grita o Damásio.

- “Foda-se puto, este gajo é mesmo deficiente…” - digo eu.

- “Exacto. A ideia é essa!” - diz o Tinoco.

Lá cabe ao sempre prestável Damásio pegar no Simplesmente Barroso como se fosse uma criança síria a descansar de rabinho para o ar à beira-mar (pumba menos 10 likes) e o voltar a meter no trono do Rei Def II, Conquistador de Nada. Chegando à merendeira, damos de caras com o mesmo cenário de sempre: uma fila do tamanho do pénis do Tinoco visto por ácaros, ou seja, enorme!

- “Puto… nós temos um def. Bora usá-lo!” - diz o Damásio ao Tinoco.

- “Nós temos mais que um, mas eu percebi. Melhor ideia de merda de todo o SEMPRE” - responde o Tinoco.

O Simplesmente Barroso encarna a sua melhor personagem, tolda ligeiramente a cabeça e solta um fio de baba.

- “COM LICENÇA… EU DISSE COM LICENÇA!!” - digo eu armado em peixeiro a entrar na merendeira com o Simplesmente Barroso numa performance “Oscar worthy” e ainda a dar mocadas nos pés dos gajos que tinham a lata de não ter um gajo em cadeira de rodas com eles.

Já em frente ao balcão e com um olhar enternecedor das gajas da fila (não havia uma ali que não nos quisesse comer naquele momento), fazemos o nosso pedido.

- “Um pão com chouriço, uma imperial… puto queres alguma cena?” - pergunto eu.

- “Népia. Eu tou fixe. Tinoco?” - diz o Damásio

- “Não tenho fome. Só uma imperial! - responde o Tinoco.

Por entre tanta merda, esquecemo-nos do Simplesmente Barroso que continua de pescoço torto e a babar a manga da camisola mas, num momento de clareza, fica com um ar relativamente normal e diz em alto e bom som:

- “E mais uma imperial” - diz o agora de repente curado Simplesmente Barroso.

A senhora da caixa que até aí exibia uma expressão de ternura para connosco, adquiriu uns tons de dragão de Komodo cheio de cólicas e chama o segurança de trás do balcão, totalmente furiosa (para não dizer outra cena com F) connosco.

- “Muito giro, mas façam favor de sair. Imediatamente!!” - ouvimos nós, já a sentir os bufos de fúria de toda uma fila ultrapassada.

Como nós não somos de conflitos (apenas de os provocar), acedemos de imediato ao pedido e eu pego novamente na cadeira do meu def, tentando encaminhar-me para a saída o mais rápido possível. E quando digo tentando, é porque a puta da cadeira voltou a encravar e a lançar o Simplesmente Barroso de volta para o chão. Ora, como se não bastasse já toda a bonita situação que criámos, o Simplesmente Barroso decide novamente manter-se na personagem e deixa-se ficar no chão a emitir grunhidos à espera que alguém o levante.

O segurança vem direito a mim já com cara de poucos amigos e eleva o tom de voz:

- “JÁ VOS DISSE PARA SAÍREM. Acabou a brincadeira!!”

- “Ok… mas o meu amigo não consegue andar, OU NÃO PERCEBE ISSO? Temos de pedir desculpa por ele não conseguir andar? É isso?” - digo eu de peito cheio mas com medo de levar uma fruta.

- “ANDOR! TODOS. JÁ!”

O Simplesmente Barroso começa a ver a situação a azedar mais do que o previsto e prontamente se levanta do chão com um salto enérgico e metendo os braços no ar.

Olho para o Simplesmente Barroso. Olho para o segurança.

- “MILAAAAAAAAAGRE” - grito eu a abraçar o Simplesmente Barroso.

Saímos rapidamente da merendeira com a promessa de só voltarmos lá quando o Damásio for pai, eu emagrecer ou o Tinoco for grande, ou seja, nunca. Nova passadeira, novo estatelamento e mais uma fila de carros à nossa conta. Por esta altura estávamos a ficar muito bons nisto e decididamente o Simplesmente Barroso passou ao lado de uma carreira fantástica como duplo de cinema. Decidimos desta vez dar uma lição ao Simplesmente Barroso sobre os limites da parvoíce, mas nunca tentem lidar com um profissional do ramo. Vendo que o estávamos a deixar apodrecer de focinho no chão, as pessoas dos carros começam a sair para ir ajudar o “coitadinho do aleijadinho” que se esmerdou na passadeira. Pegamos rapidamente no nosso def e levamos o menino em braços pelo ar, pedindo desculpa aos bons samaritanos que o queriam auxiliar. Como a bebedeira já apertava demasiado o fôlego, o Tinoco achou por bem chamar um tarifa para nos levar a todos.

Podíamos ter acabado com a brincadeira aqui? Podíamos!

Acabámos? Não!

Chegando o táxi, pedimos ao senhor que abrisse a bagageira do carro para lá metermos a cadeira do nosso amigo enquanto o Damásio o carrega em braços para o banco traseiro. Novamente, um olhar de pura admiração pelo nível de amizade que demonstramos.

- “É bom ver isso, sabe? Não é por uma pessoa ter tido um azar desses na vida que tem de deixar de se divertir." - diz-nos o fogareiro.

Começo a sentir um nível imenso de remorsos que passou de imediato com dois goles na mini que tinha comigo. A viagem correu de forma engraçada, com o Simplesmente Barroso a demonstrar um total empenho na sua personagem por entre piadas e estoiros nos tomates uns dos outros.

Podíamos ter acabado com a brincadeira aqui? Podíamos!

Acabámos? Não! Fizemos ainda pior? Óbvio.

O Simplesmente Barroso começa num ataque de raiva def em direcção ao taxista a grunhir, a babar-se e a tentar puxar-lhe as orelhas, enquanto todos o começamos a agarrar e a imobilizar.

- “Ele desde a lobotomia em Marrocos nunca mais foi o mesmo…” - grito eu.

- “Ele teve sexo com a própria irmã. E ele nem sequer tem irmã!” - ajuda o Tinoco.

- “Foda-se, ele está-me a apertar a picha e eu estou a gostar” - diz o Damásio.

Eu costumo ter muitas palavras para descrever as pessoas, mas não consigo descrever a expressão de confusão/pena/medo que o taxista tinha enquanto tentava não se espetar com o Mercedes 190D. Quase a chegar ao destino e já com um Simplesmente Barroso em modo normal (abre aspas aéreas normal fecha aspas aéreas), o mesmo começa a exibir uma mudança de cor de pele. Passou de vermelho a roxo. De roxo a verde. Pensei por momento que ele estava agora a encarnar um camaleão, mas o Simplesmente Barroso estava mesmo a começar o que seria uma regurgitação de proporções épicas:

- “Parem o carro, caralho. Parem. Vou vomitar” - diz ele para todos.

O taxista já nem quer saber como ele de repente consegue falar normalmente e encosta a viatura de imediato. Apoiado pelo Damásio, o Simplesmente Barroso graffita o piso de alcatrão em tons pastel de pasta. Mais aliviadinho e com nhacas bege presas na barba, o nosso amigo sente-se melhor e volta a meter-se no táxi voltando a grunhir mas de forma carinhosa. Chegando ao nosso destino e por entre estoiros nos tomates e mais conversa sobre tudo e mais alguma coisa, o Simplesmente Barroso é novamente escolhido por Deus para um milagre e consegue sair do táxi pelo próprio pé de forma totalmente descontraída.

Taxista não lança um nem dois mas sim oito tipos de “vão para o caralho” pelos olhos a todos, vai à mala do carro e atira a cadeira de rodas para o chão com toda a força.

- “A falta de respeito pelas pessoas é o que leva o pessoal a preferir cada vez mais a UBER, sabe?” - diz o Damásio.

Não responde e arranca a todo o gás. Metemos a cadeira de rodas no lixo todos em conjunto porque não queremos que um grupo de gente parva ache aquilo e vá fazer sabe-se lá o quê.

Tenham cuidado com as merdas que deixam na rua e foi com este pensamento que deixámos o Simplesmente Barroso na sua casa, não fosse alguém o apanhar e o montasse.

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