Foi numa das minhas viagens em matilha ao coração de férias algarvio que recebi a maior prova de que a alarvice gulosa de “comer por comer” nunca traz nada de bom.

 Deixem-me já tirar o Elefante Branco da sala: nós íamos ao Algarve para comer gajas. Não tenham dúvida desse facto e não estou a esconder nada, porque nada tenho a esconder. Gajas também fazem o mesmo, mas sendo mais inteligentes, vão em grupos de duas e pinam mais que nós todos juntos. Quem espatifa senaita aqui em cima, fica sem poder lá em baixo. Aqui podes ser o Mr. Myagi da crica, mas lá em baixo és um Daniel-San da xerifa e acabas a fazer wax on wax off ao nabo. No fundo, tudo se resume a gestão de expectativas porque dez macacos metem-se em dois carros e julgam que vão para um buffet de bifas. Com base neste pressuposto, todos estão com a autoestima em alta e todos viram Gustavos Santos do engate durante a viagem, pois cada um tem a sua teoria. Todos sabem quantas vão comer, de que forma e aonde. Quando se passa Castro Verde, já se falou tanto de sexo, que começo a ficar com a impressão de que ainda nem lá cheguei e já comi 3 gajas. Pedi para pararmos na estação de serviço, pois tenho uma bexiga de uma criança de 5 anos e, como manda a boa tradição, bebe-se uma jola para humedecer a beiça (além que com tanto sexo que já se teve naquele carro, estamos todos secos). Pedi 4 médias e uma sandes de ovo no snack-bar da bomba. Comi a sandes em duas dentadas e empurrei com uma média. Quando chegou a conta perguntei se não tinha havido engano, pois eu pedi 4 médias e uma sandes de ovo mexido e não 2 kg de lavagante e uma garrafa de Moët & Chandon.

Chegando à Oura, capital do bife de alcatra anglo-saxónico, montámos a barraca, ou seja, mandámos os sacos para dentro do apartamento e fomos logo jantar. Eu disse que não tinha fome e que tinha uma ligeira sensação de enfartamento, o que provocou um riso geral e um Tinoco preocupado que julgou que o seu amigo tinha um aneurisma dado que “não tenho fome” nunca fez parte do meu vocabulário (um pouco como “jamais comia essa gaja” ou “achas? Ela só tem 16 anos”). Depois de um jantar à rico típico de recém-chegado, inicia-se um rally pela strip da Oura. Para as pessoas do sexo feminino que estão a ler deixem-me revelar uma coisa: na Oura não há coisa como “ela é gorda”, “ela não tem uma perna” ou “ela é um ele”. É o vale tudo. O que cá em cima é um ogre, após a Via do Infante é um figuinho. E aqui começou o meu tormento, pois a merda da sandes de ovo estava estragada e eu sinto o vulcão Krakamerda a prometer erupção expedita. As primeiras gotículas de suor na testa denunciam o meu pânico e o olho do cu tenta em vão conter a enxurrada marrom. Aviso o Tinoco que se me estão prestes a rebentar as águas castanhas e que este parto fecal vai iniciar dentro de segundos. O sempre fiel Tinoco está demasiado ocupado a dançar com duas inglesas que mais parecem a dupla de centrais do Aston Villa e vejo que estou por mim mesmo. Ao longe vejo o WC. Atravessar uma maré de putas inglesas não é fácil e só me lembrava do bravo William Wallace a gritar “HOOOOOOOLD… HOOOOOOOLD…” enquanto eu as empurrava com os braços tentando conter ao máximo o escocês de barro que teimava em querer instaurar a independência do meu intestino. Quando chego às latrinas já meio esbranquiçado e com os primeiros posts de merda no meu mural interior, deparo-me com um espectáculo deplorável.

Não sei se vocês se recordam do excelente trabalho que Eça de Queirós fez em descrever o Ramalhete na grande obra “Os Maias”, mas eu prometo dar o meu máximo:

“Em fino azulejo jaz o trono de loiça. Em tempos alva e pura da mais fina e nobre cerâmica, hoje um tormento para qualquer aventureiro. O cheiro putrefacto de mil pichas leprosas é ar de floresta quando comparado com o enxofre que empesta. Papel? Inocente aventureiro crente de mitos… qual papel? Sentai no trono em posição de nobre Lancelot e rezai para que ninguém se aventure mais pois esta caverna não tem tranca” – ou seja, aquilo metia nojo aos cães, cheirava a morto, não havia papel e o trinco há muito que pediu reforma.

A minha posição era de cu alçado, mão na porta e a suar por todos os lados enquanto o meu esfíncter fazia AK-47 rajadas de merda. Não sou germofóbico, mas cagar à cavaleiro pareceu-me ser a opção sensata para não acabar com o cu numa placa de Petri. Findo o meu tormento e 3 kg mais magro, estou com um problema de merda (literalmente). De todas as hienas com problemas hormonais, eu era o único que tinha ido de ténis e, consequentemente, de meias. Nem hesitei por um segundo em transformar as minhas meias em papel Renova de folha grossa. O problema estava em realizar toda a operação sem me cagar todo nas poças de mijo e vómito. A minha primeira acção foi descalçar um dos ténis e tirar a meia. Fiquei de pé coxinho, cu cheio de merda e mão na porta para ninguém me surpreender em tal aparato. Passo a primeira demão na nalga. Sabem quando se tira cera com uma tira depilatória? Não foge muito, mas é bem mais engraçado. O tom pastel amarelado não augurava nada de bom e ainda tinha de dar segunda de mão na parede do cu. Agora vamos à parte mais difícil: descalçar o outro “téni”, tirar a meia, manter a mão na porta e apoiar o pé no primeiro “téni” para que não me nascessem larvas no pé. Por momentos senti-me um contorcionista do Cirque du Cagueil e fiquei impressionado comigo mesmo de como não me esmerdei na merda, mas lá me safei com alguma graciosidade.

De volta à pista de dança ainda está tudo na mesma: ninguém comeu ninguém e eu sinto o meu anel anal pincelado com picante da Paladino. Regressando ao apartamento, ainda comi um kebab pelo caminho.

Só para matar o ratinho.

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