Ontem fiquei muito contente por reencontrar um antigo camarada da Marinha que dava como perdido. Não que o homem tenha caído ao mar ao largo de Sesimbra, é bem pior: ele não tem Facebook. Não tem, nunca teve e nunca vai ter. Por eu ter trocado de número de telemóvel e ele ter destacado para uma unidade qualquer, perdemos o contacto. Felizmente que a mulher do Silva (e ele chama-se mesmo Silva e boa sorte a tentarem saber quem é "o Silva" na Marinha, porque só devem haver dois ou três) usa Facebook e ontem o homem enviou-me uma mensagem a dar sinal de vida e a contar-me que ficou com os c#lhões no chão quando lhe mostraram o Ruim. Mas porque é que eu estou a contar esta história digna de uma novela da TVI? Por uma razão muito simples: lycra. O Silva prestava serviço na cantina da unidade em que eu estava destacado e, caso não saibam, a cantina dessa unidade vendia Favaios. Eu gostava de Favaios. O Silva gostava de Favaios. Nós gostávamos de Favaios, tínhamos a mesma idade e éramos carecas. Para um homem, isto é tudo o que precisa para criar uma amizade eterna. Nesta altura da minha vida eu tinha o péssimo hábito de ir de bicicleta para a unidade (cerca de 9 km) e era costume o Silva apanhar-me já todo equipado (lycra, carolo e bicla) à saída e dizer "ah, anda ali só beber um Favaios, camarada!" e o estúpido lá ia, convencido que ia só beber um Favaios. Ou dez. Ele não bebia tanto, gostava era de me lixar o exercício físico. Não sei se já tentaram andar de bicicleta meio tocados, mas o pior nem é a falta de equilíbrio.

 O pior (para mim, pelo menos) é a falta de ar que surge na primeira subida com mais de 2% de inclinação. Lembro-me de pelo menos umas 3 ou 4 vezes que o Silva teve de me levar a casa com a bicicleta na traseira do carro e eu todo equipado para a Tour de France no lugar do pendura. E em todas estas vezes, o Silva teve de ir buscar a mulher ao trabalho antes de me ir pôr a casa. A rapariga viu-me uma vez. Duas. Três. Quatro. E começou a questionar-se do seguinte:

Tu andas mesmo de bicicleta ou és algum maluco que gosta de se vestir à ciclista para beber?

Ela tinha razão. Todas as vezes que a mulher do Silva me via, eu estava de lycra com um capacete na cabeça e a cheirar a uvas da boca. Ontem falámos ao telefone alguns 10 minutos. Tanta coisa que tínhamos para falar e sabem qual foi o assunto em 90% do tempo? A merda da história da lycra e dos Favaios.

Porque é isto que une os parvos na parvoíce.

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